O gosto da coca-cola eu nem sinto mais. Não sei qual é o seu sabor nem como minhas papilas gustativas são afetadas pelo contato com esse refrigerante. Mas eu sei bem o efeito da coca no meu ânimo, na minha mente e nas minhas saliências adiposas.
Sempre que escrevo, ela está ali, ao meu lado. É a minha maior aliada na batalha da criação. Ela me revigora, me ajuda a pensar e estimula os neurônios mais reticentes do meu cérebro. O líquido afunda na garganta e espalha uma onda de euforia pelo corpo todo. São milhares de células gritando “Vamos, Gustavo, mais uma frase!”. A memória fica mais rápida, as piadas, mais espertas, e a coesão textual, maior. Por isso, diante de uma tela em branco, eu não hesito.
Essa batalha da criação eu travo há vários anos, sempre com sucesso. Ultimamente, no entanto, estou tendo problemas. Quando o professor pediu, em aula, para que pensássemos em uma palavra ou expressão que representasse algo singular que estivesse ocorrendo em nossas vidas, a primeira coisa em que pensei foi “preguiça”.
Nunca senti tanta preguiça quanto agora. Acordo cansado, durmo cansado, tento jogar futebol cansado e, até na hora de tomar coca, estou cansado. É uma preguiça exótica, pois meu organismo parece em ordem e minha vida segue tão desregrada quanto antes.
A diferença é que ando tomando quantidades absurdas de coca. Parece-me que, quanto mais cansado estou, mais preciso dela. É o que eu tomei, por exemplo, antes de vir para a aula. Sempre que começo a pensar em quanto estou bebendo, fico assustado. Comecei a beber de manhã. Tomei uma latinha a caminho do trabalho, antes de pegar o ônibus de Novo Hamburgo para Porto Alegre. Cheguei à redação, arrumei preguiçosamente alguns e-mails, organizei arquivos, verifiquei se havia algo urgente para fazer e, na falta disso, rumei lentamente para o almoço. Já que a comida do refeitório, anunciada por cartazes na parede, constituía-se no meu pesadelo mais amedrontador, fui comer fora.
Lá fora, em uma lancheria perto da empresa, o pesadelo se transformou em sonho. Pedi um xis, daqueles bem gordurosos e baratos, cheio de maionese e queijo. Para acompanhar, uma coca 600 ml. Sentei à mesa e esperei, com a coca ao lado. Quando o xis chegou, dez minutos depois, a garrafinha estava vazia.
Trabalhei durante a tarde sem aditivos gaseificados. Depois, na Unisinos, antes de entrar na sala, passei na frente do bar, lembrei que ainda não tinha jantado e pensei: por que não? Peguei um bauru de calabresa e uma coca. O bauru, na verdade, serviu somente para justificar a compra de outra coca. Com ela, meu corpo ingeriu, ao longo do dia, mais de
Quando eu chegar em casa hoje à noite, terei mais coca à minha disposição. Neste momento, iludo-me pensando que posso resistir. Porém, analisando racionalmente, destituído de otimismo bobo, sei que não sou páreo para o charme daquela garrafa volumosa de dois litros de coca-cola. Certamente, meu irmão estará tomando-a, e ela me parecerá ainda mais tentadora.
Ele compartilha do mesmo vício. Juntos, criamos um site chamado Acabou a Coca. É a frase que me deixa mais triste hoje em dia. Ouço-a quando caminho em direção à geladeira, esperançoso, e sou barrado por um grito de lamento. A criação da página é uma maneira de compensar o mal que esse refrigerante me faz. No site, publico diversos textos escritos à custa de muita coca. Se eu ganhar alguma grana, estarei trocando minha saúde por dinheiro. E quanto mais dinheiro eu tiver, mais coca poderei comprar. Até que o nome do site perca o seu sentido, e todos os meus poros transpirem micropartículas alegres da fórmula secreta de Coca-Cola.
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3 comentários até agora ↓
1 Cler Oliveira // 23/10/2007 às 12:41
Ah, meu ermããão… ah, meu ermãããão…
Sempre Coca-cola!
Existe coisa melhor que Coca-Cola?
Sim. Existe. Mas não mata a sede, não tem o urso na propaganda de Natal e não custa tão pouco.. hehe.
La blog esfera… Mi casa é su casa!
Como respondi no teu coments: agora nossos textos vãopoder fazer visitas. Somos vizinhos. Não é essa a sensação que temos? Viva a tecnologia!
Bjao, Peter Petrelli (tu pode até não concordar comigo, mas tu é a cara dele, heeh)
2 Dieta Mórbida da Preguiça e da Alface e do Bacon | Gu, Go! // 26/10/2007 às 1:01
[…] me sentindo cansado e com muita preguiça. Semana passada, escrevi um texto falando sobre isso e postei aqui no blog. Minha amiga, Tabi, grandiosíssima estudiosa da nutrição, leu o post e ficou chocada. Mas […]
3 raphaella // 28/03/2008 às 18:23
eu to nessa fase
chego a tomar seis litros num dia
mas eu preciso parar
eu naum consigo passar um dia sem toma-la
eh pior do que qualquer droga
o pior naum eh q naum quero beber
eh q penso que um dia ela possa me dar gastrite
e ai como vou fazer?
morrer tomando coca?naum da
se vc souber como faco p parar me fala!
quando eu era pequena tomava coca e um so guole me fazia parar.o gas era demais.hoje toma um copo cheio num gole só….é muito bom…e nao consigo parar!
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