Carlos entrou na loja, ansioso. Tinha que comprar o presente de sua amada. O melhor presente de todos. Um que ela gostasse, mesmo. Não como na vez em que ele lhe dera um par de luvas. No verão. Agora, não podia mais cometer erros. Precisava surpreendê-la. Completavam um ano de namoro na quinta-feira, e ele estava decidido a dar-lhe o melhor presente de todos os tempos.
Saiu da loja sem comprar nada e começou a meditar. Um par de esquis? Não, ela não esquiava. E ele não tinha lancha. Uma torradeira? Não, ele já havia dado. Um vestido elegante? Não, ele era daltônico, e esse fator já o atrapalhara em outros presentes. Uma pulseira, um computador? Muito banais. Sentou-se, então, no primeiro banco que viu, para pensar melhor.
Alguns minutos depois, quando ele já reconsiderava a torradeira, o vestido elegante e até um novo par de luvas, um homem sentou-se ao seu lado. “Olá”, disse o estranho. Vestia terno preto, sapatos pretos e um chapéu preto. “Tenho exatamente o que você precisa”. Carlos retorquiu: “Como assim?”. Não houve resposta. O homem de estatura diminuta sorria sem dizer nada. Carlos ficou parado, perplexo. “Venha comigo”, disse o estranho, e se levantou.

Pararam diante de uma porta, algumas quadras depois. “Em silêncio, por favor”, avisou o baixinho. Carlos assentiu. O baixinho entrou primeiro e acendeu a luz. Iluminou uma sala vazia, com uma mesa no centro e algumas cadeiras. Sentaram-se. “Garanto-lhe que você nunca viu nada igual.” Tirou debaixo da mesa uma pasta preta. Abriu-a e revelou-lhe o conteúdo: orelhas. Dezenas de orelhas, de diversos tamanhos, simetricamente espalhadas pelo interior da valise. O baixinho levantou o dedo, como se pedisse um momento, e tirou outra pasta debaixo da mesa. Digitou um código na parte superior da pasta e abriu-a. Dezenas de olhos revelaram-se diante de Carlos. As bolotinhas variavam de tamanho e cor: umas pequenas, outras grandes, umas azuis, outras verdes. Pouco tempo depois, já havia cinco pastas pretas em cima da mesa. “Você pode escolher”, disse o baixinho. “Nós reproduzimos partes do corpo com discrição, eficácia e entrega rápida. Somos os únicos nesse ramo no Brasil, até agora. Você tem aqui a possibilidade de reproduzir qualquer parte de seu corpo para dar de presente àquela pessoa que você tanto gosta. Se for namorada, ela pode matar a saudade olhando para a réplica do seu pescoço, por exemplo. Ou, se for do tipo exótico, ela pode pôr os seus lábios dentro de um aquário, junto com um peixe furioso.”
Na quarta-feira, à meia-noite, Carlos chegou ao prédio da namorada, acompanhado do serviço de mensagens. Eram três garotos e três garotas, vestidos de cupido, com asinhas e arco-e-flecha. Levou-os até a frente da porta dela, bateu duas vezes e se distanciou. Escondido no fim do corredor, viu os cupidos recitarem o poema escrito por ele. Ao fim da leitura, eles entregaram à namorada o presente de Carlos. Então ele iniciou o caminho até o apartamento, vagarosamente. Calculou que, naquele momento, a namorada já teria aberto o embrulho. Teria visto o par de luvas – e tido vontade de estrangulá-lo. Em poucos segundos, pelos seus cálculos, ela sentiria que uma delas estava bem pesada. E veria, contente, como ele conseguia surpreendê-la.
Plof, plof. Carlos, com esquis nos pés e uma torradeira na mão, entrou no apartamento perguntando: “Já viu meu nariz, já viu meu nariz?”. A namorada, tremendo, olhava fixamente para o nariz em sua mão. “Consegui com um baixinho”, explicou Carlos. “Ele queria me vender um olho, mas…”. A namorada desmaiou.
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2 comentários até agora ↓
1 Textos escritos sobre legumes e verduras - bizarro! | GuGo! // 22/11/2007 às 22:18
[…] também: 2 Posts sobre legumes Muitos posts com a palavra “bizarro” O Presente Perfeito Hitler não fumava nem […]
2 Fê // 28/11/2007 às 8:04
Mas qual foi o problema??
Não tem nada mais romântico do que receber um nariz como presente de namoro!
;PPP
Adoroo esse escritor! =*
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