Existe aqui em Novo Hamburgo uma ilha de surrealismo em meio ao mar calmo do conservadorismo. É um lugar onde se fala de tudo, sem meios-termos. Onde tem mulher, homem, criança e homem que é mulher e criança ao mesmo tempo. Cobre o lugar uma névoa de desconfiança, criada pelos defensores do normal e repulsores do diferente. Esse lugar atende pelo seguinte apelido: “As Bancas”.
Novo Hamburgo sempre foi conservadora. A evolução do pensamento da população não acompanhou o crescimento da cidade. Novo Hamburgo tem tamanho de cidade grande, vende sapatos como cidade grande, quer ser cidade grande, mas seus habitantes não se portam como habitantes de cidade grande. Aqui, não há espaço para o novo. Enquanto lugares maiores acolhem gays e simpatizantes, aqui, muitas vezes, a discriminação reina. Num tempo em que se debate tanto o racismo, alguns moradores ainda não entenderam bem a questão. Numa cidade de nível cultural tão alto, gurias de piercing são marginalizadas, punks de cabelo espetado são temidos, garotos que usam brincos são “veados” e homens cabeludos são de outro planeta.
Parece até mentira que, no epicentro desse enorme mar de conservadores e ortodoxos, existam as bancas, povoada por liberais e reacionários. Nas bancas, encontra-se todo tipo de gente interessante: os bêbados, os anarquistas, os mendigos, os políticos, os guardas, os velhinhos, os tarados, os malucos e o pessoal que volta das festas louco por um enroladinho. Todos convivem sem problemas. Até que o bêbado puxa papo com o maluco, o maluco grita com o anarquista, o anarquista começa a ler em altos brados um manifesto na orelha do velhinho, o velhinho pede ajuda pro político, o político encara o guarda, o guarda aponta pro tarado, e o tarado sai correndo. Até que tropeça no mendigo, que curtia uma soneca.
O café da manhã nas bancas prova-se um mergulho intenso numa batida completa de todas as culturas emergentes da cidade. Para quem volta das festas e não quer ir para casa, não tem lugar melhor. Nas bancas, interage-se com personagens mais peculiares do que o exercício de imaginação mais poderoso poderia criar.
Há um velhinho, sempre de passagem pelas bancas, que é chamado de “o tarado”. Ele vai para aqueles arredores com um mote certeiro: atacar as velhinhas. Avistando senhoras com idade entre 60 e 90 anos, ele ajeita os óculos escuros e vai à caça. A perseguição se dá de forma bastante grosseira, absolutamente indiscreta. Parece uma ave de rapina atrás de sua presa. A diferença é que a ave de rapina é mais certeira e menos indecisa. O velhinho tarado seguidamente pára no meio do caminho para analisar outra presa e se confunde em meio a tantas ofertas.
Outro que está sempre nas bancas é um homem que sabe de todos os segredos dos políticos hamburguenses. É considerado um bruxo por alguns, maluco por muitos e deveras interessante por mim. Ele conta histórias escabrosas envolvendo os homens mais influentes da cidade. Este foi preso há dois anos fumando maconha, aquele foi multado a tantos por hora na BR 116, o outro tem uma amante coreana, etc.
Assim como os seres humanos precisam sonhar à noite e deixar o inconsciente tomar conta da mente, uma cidade também precisa relaxar. Quando o debate lógico e racional cessa, forja-se lugar para a imaginação. As bancas são o inconsciente coletivo de Novo Hamburgo. A névoa é a mamãe dizendo: “calma, calma, foi só um sonho”.
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