Às 8h30 saio do albergue correndo em direção à estação de metrô Bayswater,
para pegar a Central Line até Oxford Circus. Não posso me atrasar. Seria a
quarta aula seguida em que eu me atraso e a 14 no mês. Teoricamente, preciso
de 60% de frequencia para conseguir conseguir estender o meu visto de
estudante, que vence em dois meses. É, vai ser difícil.
Mais difícil do que chegar na aula antes das 9h só esse meu Ipod estranho,
que eu comprei num indiano achando que fazia o melhor negócio da minha vida.
Esses indianos são os melhores vendedores do mundo. Por isso, dominam tudo
aqui em Londres. Acredito que 79,5% dos cyber cafés sejam de indianos, que
falam de um jeito exótico e não fazem a mínima questão de parecer
simpáticos. Mas eles têm sempre o melhor preço, e sabem disso.
O que eu sei é que estou tentando ligar essa porcaria de Ipod desde que saí
do albergue, mas não consigo. Quero ouvir um CD do The New Pornographers,
que é muito empolgante. Dá até pra acreditar no rock de novo. O álbum Twin
Cinema é mais antigo, acho que de 1995, mas não tem problema. Pra quem se
perdeu no passado de Ac/DC, Van Halen, Iron Maiden e Simon & Garfunkel, já é
um avanço no tempo.
Entro na estação às 8h36, o horário de rush do metrô londrino. Uma multidão
se aglomera em frente ao elevador que leva para os trens, mas eu decido usar
as escadas. Não que eu goste de caminhar, mas eu gosto de Londres. E preciso
chegar na hora. Só quando cheguei ao térreo e vi o trem é que alguém gritou
³not allowed², e eu percebi que não era permitido usar aquelas escadas só
em situação de emergência.
Me distraí com o fiscal do metrô e perdi o primeiro trem. Pelo menos, deu
tempo fazer o Iqod funcionar. Começo a ouvir Jack is dressed in cobras e
esqueço a chuva que cai lá for e o aperto que eu estou prestes a passar.
Dois minutos depois, apareceu outrotrem , ainda mais lotado. Entrei e ouvi
aquelas mensagens da estação: ³Mind the gap², ³Mind the gap between the
train and the platform² e ³Mind the closing doors². Eles repetem várias
vezes porque tem muita gente que não se dá conta- não sei como do tamanho
do vão que existe entre o trem e a plataforma. Esse é o tal do gap. E a
terceira frase diz respeito aos loucos que se atiram pra entrar no trem
quando as portas já estão fechando. Já vi casos assim e, confesso, já fui um
desses loucos.
Às 8h48, o trem abre suas portas para Oxford Circus, a mais central e
movimentada das estações londrinas. Saio do trem e caminho apressado em
direção ás escadas rolantes. Mas não sou o único apressado. Em Londres,
especialmente a essa hora, até as crianças estão apressadas, atrasadas para
algum compromisso. Os piores, claro, são os de terno. Esses caras atropelam
todo mundo. Mas é impressionante que até nessas situações a educação
londrina se sobrepõe aos esbarrões. Mesmo que só encostem sem querer em
alguém, os homens de terno pedem desculpas, e sorrys e pardons. E não dá nem
tempo de dizer Calma aí, não foi nada. Eles já estão bem mais à frente,
pedindo desculpas para outros.
Às8h53 eu saio da estação, abrindo caminho pela horda de trabalhadores que
estão atrasados para o trabalho. Sorte que a escola fica bem pertinho da
estação, numa rua paralela à Oxford Street. Faço uma paradinha rápida para
comprar uma coca-cola, e o indiano não entende que eu quero uma de 600 ml, e
não a de lata. Tudo bem, não tenho tempo mesmo. Pego a latinha, dou-lhe um
par de moedas e continuo meu caminho. Chego na frente da escola às 8h57.
Cumprimento uns orientais que conversam na escada, digo hello de longe para
um italiano e paro na frente da minha sala. Coloco o celular no silencioso
e entro às 9 da manhã. Pela primeira vez, não estou atrasado.
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1 comentário até agora ↓
1 Carol // 16/04/2008 às 13:22
pior que eh bem assim mesmo….
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