Com os olhos ainda semi-cerrados, quase dormindo, sento ao lado do Chin, um
japonês pirado de cabelos espetados e voz rouca, estridentemente aguda. Do
outro lado, com a cabeça enterrada na mesa, está o croata Ivan Ivánovich,
que na verdade não tem esse sobrenome mas é como eu o chamo. Esse cara é uma
figura: óculos grossos, rosto cheio de espinhas, cabelo preso por um rabinho
de cavalo e uma voz muito, muito grave. Além disso, gosta de Heavy Metal,
critica qualquer um com o entusiasmo de quem acaba de acordar numa
segunda-feira de manhã e não demonstra emoções sob hipótese alguma.
Minha turma tem gente de tudo que é cor e nacionalidade. A maioria dela, um
bando de loucos. Além do Ivan e do Chin, que está tentando largar o cigarro,
tem o Schon, que é outro japonês, totalmente diferente: gordinho, tarado por
futebol, ingênuo como uma cortina e divertido pra caramba. No primeiro dia,
foi com quem mais conversei, porque ele queria saber tudo sobre o futebol
brasileiro, sobre os times pelos quais eu torcia, etc. No fim, descobri que
ele entendia mais do futebol brasileiro do que eu. No Japão, há criaturas
muito mais fanáticos por futebol do que nós. Especialmente, pelo futebol
brasileiro.
Também tem outros orientais na minha turma: um japonês ou coreano ou chinês
que eu nunca vi abrir a boca nem se mexer muito mais que alguns milímetros
quando chego, ele já está lá e, quando saio, ele fica; três coreanas que não
se misturam ao resto do grupo nem externam o que existe por trás daqueles
rostos bochechudos e olhos curiosos; um iraniano gente boa, de cabelo curto,
que sempre aparece de calça social e sapatos pretos, filho de pais
milionários que não o deixam trabalhar; uma iraniana querida, a mais educada
de todas, que fala muito bem inglês e não usa a burka, como indicado às
mulheres da religião muçulmana.
À minha frente, o professor Wayne contrasta com seus alunos reluzentemente
brancos. Ele é um cara muito inteligente, apaixonado pela cultura brasileira
e louco para aprender português. De vez em quando, ele coloca músicas do Tom
Jobim e do João Gilberto para embalar a aula. Tento não demonstrar que não
sei nada sobre esses dois músicos. Enquanto ele, londrino de pele negra,
admira a MPB, eu, brasileiro de pele clara, gosto é do rock britânico. Um
desses paradoxos que se enxerga com grande frequencia por aqui.
Estamos numa aula de pronúncia, na qual não estou interessado. Tenho a
pronúncia bastante razoável, o que não é verdade em se tratando dos meus
colegas orientais, que precisam de muita prática e teoria para soltar a
língua. Fico conversando com o Chin, até que o professor o chama. Aquela voz
aguda e rouca atinge meus tímpanos, e eu repouso a cabeça na classe.
Segundos depois, já completamente absorto no meu mundinho onírico, escuto a
voz mais gutural e grave da face da Terra. É Ivan Ivánovich, que acordou.
Começo a conversar com ele e me distraio. Ele conta que está planejando sair
da casa da família que o está hospedando. Parece que a mãe londrina é meio
louca e dá em cima do Iván, coitado, que tem namorada e não é dessas coisas.
Um dia, ela colocou álcool na comida dele e principiou a tagarelar a
respeito duns assuntos muito obscenos, os quais ele não quis dividir comigo.
Ele e uma trupe de croatas cheios de espinhas estão procurando apartamento.
Iván Ivánovich acha que eu ia me dar bem com o pessoal, que eu devia morar
com eles. Vamos ver.
Por enquanto, fico no albergue, que é muito divertido e completamente
imprevisível. É praticamente um ser vivo, cheio de alterações hormonais e
períodos alternados de estresse completo e alegria absoluta. Minha
experiência aqui não renderia tanto texto se não fosse o albergue, eu acho.
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2 comentários até agora ↓
1 Carlos // 19/12/2007 às 10:04
Tche, entrei no google procurando algum luz no fundo do tunel e vi o teu comentario. Estou buscando uma escola em londres para estudar mas todos as que encontro parecem piratas. Sera que tu poderias respoder este email e me dar umas dicas depois de saber mais ou menos o que estou a fim.
valeu
carlos
2 Carol // 16/04/2008 às 13:05
Realmente, estudar aqui eh uma piracao em todos os sentidos! bjs!!
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