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Um Pulo Sem Pára-Quedas em Atenas - Jogos Olímpicos de 2004

15/11/2007 · 1 comentário

- A passagem, por favor.

Hesitamos. Então, cada um pegou sua passagem e entregou ao fiscal do metrô. Este, não satisfeito, nos disse que aquela não era válida. Nós sabíamos. Para ir ao Aeroporto Internacional de Atenas, tínhamos de ter comprado um tipo de passagem diferente, mais cara.

- Desculpa, a gente não sabia – disse eu. Meu amigo não falava inglês.
- De onde vocês são? – perguntou o fiscal.

Eu tremia. Imagina: eu ouvira dizer que, se fôssemos pegos com a passagem errada num metrô ateniense, teríamos de pagar 56 Euros de multa cada um - dinheiro que, naquele momento, nem eu, nem o baiano tinha.

- De onde vocês são?

O Baiano, assustado, mirava o fiscal com os olhos arregalados. Não entendera a pergunta. Para ele, talvez o fiscal estivesse dizendo “vocês estão presos” ou “parabéns, vocês são o centésimo e o centésimo primeiro a serem passíveis de multa no dia de hoje, e isso significa que vocês estão liberados”.

- Brasil – respondi.

Momento de apreensão. Em muitos lugares, não é grande vantagem dizer que se é brasileiro. O Brasil tem características festivas e comportamentais que surpreendem e empolgam os europeus, mas a imagem de violência e corrupção ainda é associada – com razão - ao nosso País. O baiano me olhava, apreensivo. Multados, será? Decapitados? Meu olhar, decerto, também não denotava coisa boa. Eu tinha medo, muito medo.

- Vocês são brasileiros mesmo? – perguntou ele, com a expressão transformada. – O meu nome é Sócrates, em homenagem ao maior jogador de todos os tempos!

Concordei entusiasticamente. Sim, o melhor jogador! O mais talentoso. Os dribles, os chutes! Espertamente, emendei que gostávamos muito de futebol e que o time grego parecia muito bom, afinal ganhara de Portugal e sagrara-se campeão da Eurocopa. Ouvindo isso, os olhos do fiscal brilharam. O aspecto carrancudo e frio desaparecera completamente.

Conversamos por mais alguns minutos, sem que o baiano entendesse coisa alguma. Só o que ele fazia era rir quando eu ria e gargalhar quando o fiscal gargalhava. No fim, não fomos multados nem presos.
- Um abraço, brasileiros, boa sorte nas Olimpíadas!

olimpiadas_atenas_2004.jpg

No Aeroporto Internacional de Atenas

Cinco minutos depois, chegávamos ao aeroporto. Como havíamos pagado dois euros a uma agência de viagem para guardar nossas malas lá, cada um tinha nas costas a sua mochila, e só. Não sei a quem enganávamos ao entrar no aeroporto fingindo estar prestes a embarcar num avião.

O primeiro dia foi bem tranqüilo. Dormimos algumas poucas horas e, na manhã seguinte, pegamos um ônibus de volta para o centro da cidade, a fim de arregimentar um plano de ação que nos possibilitasse tomar banho em algum lugar.

Por dois euros, combinamos com o dono de um albergue que poderíamos tomar banho lá.

Durante o dia, íamos a algum jogo do Brasil. À noite, retornávamos para a nossa morada. Tudo corria bem – fora as dores no corpo, que nos acompanhavam insistentemente -, até que, no terceiro dia, nos expulsaram do aeroporto.

- Não pode deitar aqui – disse o segurança. Olhei para o lado e vi o baiano roncando.

No caminho de volta ao centro, às 3h da manhã, o baiano estava muito triste, quase deprimido. Ele tinha os olhos cansados, afinal estávamos dormindo, no máximo, 4 horas por noite, no chão frio do aeroporto. E, agora, para completar, fôramos expulsos de lá. Nem o chão frio tínhamos mais.

- E agora? – ele perguntou.
- A praça.

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Tags: coisinhas crocantes · viagem





1 comentário até agora ↓

  • 1 Descobrindo o jazz II - Divas | GuGo! // 15/12/2007 às 19:37

    […] aleatórios: 1. Um pulo sem pára-quedas em Atenas 2. Blogs antigos: London Style 3. Youtube - A essência do caos 4. Foo Fighters toca Arcade Fire 5. […]

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