Em seu texto Mata que É Crítico , publicado em maio de 1971 no Pasquim, Paulo Francis critica Pauline Kael e os críticos em geral. A partir de um trecho publicado na revista New Yorker, Francis constrói uma contraposição bem argumentada ao raciocínio de Pauline.
Ela diz, em essência, que o cinema é mais entretenimento do que arte. Segundo Pauline, “Filme é bom na ação, em reflexões e conceituações intelectuais, não”. E vai além: “Os filmes não ajudam você a desenvolver uma inteligência independente. Deixam pouco à ruminação e fornecem dados insuficientes sobre as questões que levantam”.
Francis principia seu raciocínio imaginando que Pauline escreveu esse artigo em uma semana de desespero com a mediocridade do cinema. Diz que é engraçado ler uma opinião assim emitida por alguém que já defendeu tanto os gêneros populares, como o western e o thriller.
A verdade é que o texto de Francis analisa a análise de Pauline. Ou seja, este texto aqui se propõe a ponderar as opiniões de Francis, que escreveu acerca das idéias de Pauline, a qual criticou os filmes populares e sem conteúdo aos quais se assistem com tanta avidez.
A idéia central da crítica de Pauline constitui-se em uma comparação subjetiva – e não declarada – entre arte e entretenimento. Para ela, a maioria dos filmes não leva à reflexão. Portanto não podem ser levados tão a sério nem substituir a leitura dos livros que os originaram. Assistir a filmes seria meramente uma atividade de fruição do que se passa na tela, sem possibilidade de envolver e revolver a mente do indivíduo espectador. Pede-se o prato, come-se e vai-se embora. Escolhe-se um filme, diverte-se e deixa-se a sala. Não se leva nada do filme que se viu.
Francis defende que o cinema se subintelectualizou. Apropriou-se das críticas do passado e reformulou-se para tentar agradar críticos e público. A reformulação ocorreu tomando emprestadas características de filmes que os críticos cultuavam. Superficialmente, então, todos os filmes pareceram mais cultos, elitizados e artísticos.
Mas a aparência não engana a todos, apesar de ludibriar alguns. Francis acredita, com razão, que filmes que originam reflexões continuarão sendo privilégio de uma elite, incluindo a si mesmo. Isso ocorre porque a maioria das pessoas não se interessa por arte. Pouca gente quer olhar um filme e discutir sobre o assunto ou escrever uma resenha crítica sobre cinema. A maioria utiliza-se da experiência cinematográfica como entretenimento puro.
Por isso, Francis não se preocupa tanto quanto Pauline. Ele entende que o cinema é feito dessa maneira por um motivo: o público quer assim. A televisão e o rádio também. Tudo é feito para atingir o maior número de pessoas e lucrar a maior quantidade de dinheiro possível.
Em um mar de entretenimento, há algumas ilhas de arte, que são descobertas com louvor pelos críticos. É de se esperar que alguém que vive de sua opinião deve perceber que arte sem entretenimento não se sustenta. Assim como este texto depende do Francis, que depende de Pauline, que depende de filmes medíocres.
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