
Coloco os fones e dou o primeiro passo fora de casa. Está frio, tenho alguns quilos de roupa no corpo e o vento cortante me perturba. Caminho apressadamente enquanto a música me distrai. Ela se chama Kill The Director, da banda The Wombats. O clipe é engraçado, e a canção tem uma levada muito faceira, apesar do vocalista querer que matem o diretor.
É impressionante: 37% das bandas relevantes utilizam o The na frente, especialmente as britânicas. Eu poderia até tentar descobrir a origem e a causa dessa história, mas, com este frio, não dá. Uns três graus, no máximo. As grandes composições musicais não devem ter ocorrido em temperaturas semelhantes, mesmo na Inglaterra. Se os Beatles compunham no inverno, certamente o faziam dentro de casa, do estúdio ou de um bar. Ninguém cria no gelo. Os átomos das boas idéias se dissolvem. Há teorias altamente discutíveis de que os países mais criativos sejam os quentes. Os tropicalistas, Gilberto Gil, Caetano Veloso e aquela turma toda estão aí para provar isso. Ou não.
Minhas pernas movem-se com agilidade, motivadas pelo frio. Tem início Panis et Circenses, dos Mutantes. Pão e circo, na Roma Antiga, significava distribuição de trigo e diversão para a plebe. Do que mais precisamos, afinal? Suprir as necessidades fisiológicas e o desejo por entretenimento, isso é tudo. Júlio César estava certo. E quem criou essa música? Gil e Caetano. Este foi, inclusive, acompanhado pelos Mutantes durante o Festival Internacional da Canção de 1968 na execução de É Proibido Proibir. Nela, Caetano dá um discurso eloqüente e bem formulado, destratando a juventude e a censura em geral.
O vento fica mais forte, e o shopping se aproxima. Começa a música Generator, single lançado no fim do ano passado e relançado em junho pelos ingleses da The Holloways.
São amiguinhos dos caras da The Wombats, com os quais estão em turnê atualmente. The Holloways faz uma “feel good music” ainda mais empolgante que seus camaradas. Trata-se de um ritmo tão alegre e instigante, que passa a impressão de que a guitarra vai sair dançando ao som de seus próprios riffs agudos. Os shows dessa turnê devem ser a maior fonte de felicidade do planeta.
Um mi principia a soar, e a bateria se acelera. É o início do punk rock Strasbourg, da The Rakes, que vem ao Brasil em julho para tocar no Indie Rock Festival, em São Paulo e no Rio.
Na loja de CDs, dou uma olhada nas capas. Com essa história de baixar tudo da Internet, perde-se o costume de ver a arte do encarte, as fotos e as letras, essas coisas que embrulham e justificam, de vez em quando, a compra.
Ecoa em meus ouvidos Icky Thump, da The White Stripes. No mesmo instante, encontro o CD da banda entre dois do The Vines. Não, 50 reais não são nada melódicos. O novo álbum tricolor tem sons bem interessantes, embora, analisando-o primariamente, não pareça tão bom quanto o último, Get Behind me Satan. O clipe de Icky Thump é bem vermelho e ressalta os traços de Meg White, em seu ritmo único e característico. O melhor momento ocorre aos 2 minutos e meio, quando Jack White solta um “Lalalalalalala” tresloucado.
Tiro os fones e chamo o vendedor. Opa, não tem The Wombats? Ele não entende, dá uma revirada em alguns álbuns e diz que não, não tem. E The Rakes? Também não. The Holloways não vou nem tentar. Peço pelos Mutantes e sou atendido – tem aquele DVD Ao Vivo gravado em Londres. Se a banda se chamasse The Mutants, eu não acharia.
Pronto, agora vou comer alguma coisa, voltar para casa e assistir à performance de Zélia Duncan cantando Panis et Circenses. Uma canção iluminada de sol tem seu valor nesse frio. Ave, César, Caetano, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias.
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