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A Sangue Frio: memória confiável ou literatura de ficção?

03/12/2007 · 1 comentário

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A Sangue Frio é a obra-prima de Truman Capote. A esse livro o escritor dedicou seis anos de sua vida e boa parte de sua sanidade. Tanto esforço rendeu-lhe muito dinheiro e o reconhecimento de que ele havia contribuído para a criação de um novo gênero jornalístico, o “romance verídico”, como ele gostava de denominar a sua versão do New Journalism. 

Muitos críticos não aceitaram a idéia. Era absurdo que um romance de ficção poderia ser enquadrado como um feito jornalístico. Custavam a acreditar que, em teoria, todas as informações contidas naquelas mais de 400 páginas constituíam-se de fatos.    

O livro ainda é comentado e discutido hoje justamente por causa desse detalhe. Se fosse obra advinda puramente da imaginação de Truman Capote, não teria tido um décimo do sucesso e da vendagem. A princípio, a história seria publicada somente na revista New Yorker, que anos antes havia fornecido guarida à matéria multipremiada de John Hersey, Hiroshima. Devido ao estrondoso sucesso dos quatro capítulos da reportagem de Capote, a história de A Sangue Frio foi publicada em livro.  

A Sangue Frio pode ser considerada a última grande obra do autor, que escrevera antes diversos contos de sucesso, como A Bonequinha de Luxo, protagonizada no cinema por Audrey Hepburn. Emocional e literariamente, Capote não conseguiu desprender-se de seu grande envolvimento com a história do assassinato da família Clutter e seus personagens.  

Na verdade, muitos consideram a história da feitura do livro mais interessante do que a trama real. Numa pequena cidade do Kansas, chamada Holcomb, de 270 habitantes, uma família foi assassinada em novembro de 1959. Numa tentativa de assalto, Perry Smith e Richard Hickock não encontraram o cofre cheio de dinheiro que procuravam e mataram os quatro membros da família Clutter – o pai Herbert, a mãe Bonnie e os filhos Nancy e Kenyon. Os dois asssassinos foram julgados e condenados a morrer na forca.

Um deles, Perry Smith, teve suas pretensões, seus dissabores e seu passado dissecados por Truman Capote, que o entrevistou incontáveis vezes.  Na época, havia boatos, inclusive, de que o afeminado Capote teria tido um caso com Smith. Esse rumor não foi provado. Mesmo assim, nota-se, na narrativa, a intensidade da relação dos dois, a julgar pela análise acurada da mente do assassino promovida pelo escritor. O teor de alguns trechos consegue infundir até pena nos leitores. No fim do livro, com a descrição apurada do enforcamento e dos motivos que levaram Perry até ali, provoca-se a questão: até que ponto a pena de morte pode ser considerada salutar para os sistemas penitenciário e judiciário e, em última instância, para a justiça?  

Quem acompanhou o enforcamento conta que Truman Capote vomitou ali duas vezes. Amigos relatam que ele chorava a cada palavra e ponto datilografado nos capítulos finais. Mais do que escrever uma história, ele havia vivenciado a trama. Portanto, sentia o seu desfecho, que era interpretado por ele, embora o acontecimento fatal não fosse definido – nem pudesse ser alterado – pelo próprio autor.  

Mesmo depois de finalizar o relato, publicar e embolsar 2 milhões de dólares – que, na época, valiam algumas vezes mais do que hoje -, Capote não sossegou. Queria mais prestígio. Ficou muito irritado por não ter ganhado nenhum prêmio pelo livro. Mais ainda quando seu colega escritor Norman Mailer foi premiado com dois Pulitzer por seu trabalho em Os Exércitos da Noite, de 1969, e A Canção do Carrasco, de 1980. 

A irritação de Capote, de tão eloqüente, pode ser citada: “Eu crio algo realmente inovador, e quem ganha os prêmios? Norman Mailer, que teve a coragem de dizer que era burrice o que eu estava fazendo em A Sangue Frio; depois ele se senta e faz um plágio perfeito. Não existe um plágio maior em todo o século XX. Mas só uma coisa me magoa: nem o sr. Mailer nem tantos outros que me copiaram, como o sr. Woodward e o sr. Bernstein (repórteres do caso Watergate), nunca reconheceram que me devem alguma coisa, que fui eu quem inventou essa fórmula. Eles ganharam prêmios, e eu não ganhei nada. Então, a essa altura eu posso dizer: ‘Fodam-se todos vocês’”.  

Caso se considere cada linha de A Sangue Frio verdade, então realmente não lhe dar um prêmio de qualquer tipo deve ser considerado um sortilégio. Capote penetra agudamente na percepção sensorial, mental e emocional de cada personagem do livro. As descrições da cidade de Holcomb são vívidas. O relato do enforcamento compreende toda a complexidade do momento, a partir da perspectiva de diversas pessoas e até do próprio autor.  

Mas nem todos confiam tanto na memória de Truman Capote quanto ele mesmo. Decidido a escrever uma matéria sobre o assassinato, depois de ler a respeito em uma nota de jornal, dirigiu-se para o Kansas com sua amiga escritora, Nelle Harper Lee, a qual se converteu em sua secretária de pesquisa. Juntos, os dois coletaram centenas de depoimentos de absolutamente todos os envolvidos com o assunto. Em nenhum momento, Capote ou Nelle tomou notas ou gravou seus entrevistados. Capote possuía – e gabava-se de possuir – uma memória notável para histórias e falas. Dizia que havia treinado com um amigo, que lhe lia textos para testar sua recordação. Segundo o escritor, ele lembrava textualmente de aproximadamente 95% dos escritos.  

Sérgio Vilas Boas, em Fatos e ficções a sangue frio, afirma que a última parte do livro foi completamente imaginada por Truman Capote. Nela, Alvin Dewey encontra-se com Susan Kidwell no cemitério onde a família Clutter havia sido enterrada. De acordo com Vilas Boas, a informação encontra-se em Capote – Uma Biografia, de Gerald Clarke.  

Há de se convir que, se o final da história foi criado pela mente do escritor, que se propunha a fazer uma obra verídica, alguns detalhes ao longo do livro talvez tenham sido inventados também.  Unindo-se a falta de um gravador, a imaginação do escritor e sua propensão literária, pode-se supor que a obra-prima de Truman Capote, A Sangue Frio, ultrapasse o pacato campo do jornalismo literário e invada fatalmente o território da literatura de ficção. “Os ricos nunca são enforcados”, escreveu Perry em seu diário, enquanto aguardava o julgamento.

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Tags: literatura · txt





1 comentário até agora ↓

  • 1 Cler // 04/12/2007 às 10:17

    Para os estudantes paraquedistas de plantao que recorrem ao Google cada vez que querem um trabalho (pronto), essa resenha eh um ´prato cheio, hehehe…

    Vou ajudar na busca deles:
    “ÓTIMA RESENHA SOBRE O LIVRO A SANGUE FRIO DE CAPOTE”

    “RESENHA PARA TIRAR 10 DE A SANGUE FRIO”

    ou para os mais perdidos

    BAIXAR+SANGUE FRIO+ JOHN CUSSACK

    Tu te puxa, né?
    Vai ganhar dinheiro com teus livros, guri. :)

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