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Eu vou entrar na sua cozinha

08/12/2007 · Sem comentários

Só se deu conta de que esquecera o dinheiro em casa quando terminou de tomar o primeiro copo de coca-cola. Abriu a carteira furtivamente, sem deixar que o dono do bar visse. Não havia nada ali, exceto o seu documento de identidade. Enfiou a mão no bolso esquerdo, e depois no direito. Achou somente uma moeda de 25 centavos. Precisava de mais seis dessas moedas para pagar pela coca-cola.

Encheu novamente o copo e começou a arquitetar um plano de fuga. O dono do bar tinha uma idade avançada. Certamente, não o perseguiria em alta velocidade. O problema era o seu ajudante, que contava com uns trinta anos a menos que o velho. Se o ajudante fosse tão rápido numa corrida quanto era na lavagem de pratos, o caloteiro não teria a menor chance.

Em poucos minutos, o pecado fora definitivamente consumado. Estava ali a garrafinha transparente de coca-cola, com um resquício insignificante do líquido no fundo do vazilhame. A garrafinha e a carteira vazias constituíam-se, em conjunto, na prova cabal do crime. Mas, pensou ele, quem garante que eu já não paguei? Ao que me consta, esse velho pode estar caduco. Ademais, é extremamente improvável que o ajudante seja um velocista e um pensador ao mesmo tempo. Talvez, se eu simplesmente sair pela porta, ninguém vá me parar. E se eu der tchau, ainda, como prova de que não me importo que notem a minha saída?

Levantou-se, resoluto, e mirou a porta. Quando a fuga principiava a ganhar contornos mais nítidos, uma voz interveio: Deseja mais alguma coisa, senhor? Ele virou-se, prontamente, com um dedo em riste, e solicitou: Mais uma Coca-cola, por favor. Vou sentar nas mesinhas ali da frente.

Por fora, ele parecia contente por poder desfrutar de mais 300 ml de prazer. O sorriso, entretanto, escondia a sua face interior. Por dentro, nunca estivera tão lívido. Em vez de fugir desvairadamente, ele pedira mais uma garrafa de coca-cola. O resultado de ter ficado em pé e mirado a porta não fora o planejado. Ele não estava livre, como previra, e sim mais aprisionado à idéia de ser um caloteiro.

Decidiu tomar essa segunda garrafa com calma, a fim de meditar mais acerca da situação. Nada de se levantar e pedir outra coca, como fizera antes. Tinha de resolver tudo, sem cometer erros. Se era para fugir, que fugisse! Sem, desnecessariamente, aumentar o volume do roubo.

Com o segundo copo, outras idéias surgiram. A primeira era arremessar o próprio copo na cabeça do velho e a garrafa na cabeça do ajudante. E, só então, fugir. A segunda envolvia incêndio e policiais corruptos. Como ele não tinha boa mira e não conhecia nenhum policial, levou em consideração a terceira idéia.

Levantou-se e tomou o último gole de coca. O dono do bar perguntou de novo: Mais alguma coisa? A idéia era simples. Ele responderia: Sim, eu quero mais uma coisa: entrar na sua cozinha. Sou agente da fiscalização sanitária e percebi 23 infrações até este momento. Depois, quando o dono do bar estivesse aterrorizado, ele o tranquilizaria, dizendo que, desta vez, seria só uma advertência. E então sairia sem pagar, com a anuência do homem.

Sim, eu quero mais uma coisa, disse o caloteiro. Antes que pudesse completar a frase, alguém o cutucou por trás. O Fábio! Meu Deus, o Fábio. Um sorrisão se abriu. Ele não podia acreditar. O Fábio era rico. Se, por uma possibilidade trágica, o Fábio não tivesse ali a carteira, decerto teria centenas de reais num bolso ou numa meia. O caloteiro cochichou no ouvido do Fábio, que imediatamente lhe deu uma nota de cinco.

O caloteiro andou em direção ao dono do bar, com o dinheiro na mão. Quando chegou perto, o dono do bar sorriu e perguntou: chamou ajuda para pagar, é? O caloteiro guardou a nota de cinco no bolso e disse: Olha, eu não queria, mas assim você me obriga. Sou agente da fiscalização sanitária e vou entrar na sua cozinha…

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