Oi, Diego. Oi Sérgio.Vocês comentaram indignados no texto A Revolta de Kramer, que publiquei há algum tempo no blog. Pois aqui eu respondo:
A revolta de Diego
“Bom, primeiro de tudo, qualquer coisa que eu escrever aqui depois desse seu texto, vai ser chover no molhado, creio que depois do que você escreveu, qualquer pessoa que não esteja pré-disposta a atacar o Michael Richards independentemente dos fatos, não terá o que dizer.”
Penso que você deveria ler o texto novamente. Em nenhum momento, ataco Michael Richards e minha opinião é emitida poucas vezes no texto, apesar da sua interpretação. Em uma das vezes em que ela aparece, digo que a carreira de Richards acabou assim que ele agiu daquela forma em seu show.
Não digo isso por me posicionar contra Richards e esperar que ele se aposente motivado pelo episódio, e sim por achar que a platéia - branca e preta - não conseguiria perdoá-lo. E as piadas dele só poderiam sobreviver caso isso acontecesse.
Também digo que a cena do ódio, como o próprio Richards a descreve, foi uma das mais chocantes da história da comédia norte-americana. Isso não é mentira. Para quem é ou era fã do comediante, impossível não se comover negativamente com o episódio.
Independentemente de que tipo e em que quantidade carregamos ódio e preconceito dentro de nós, não devemos escoá-lo em direção a outras pessoas, mesmo que elas tenham nos prejudicado. Obviamente, aqueles caras atrapalharam a atuação de Richards e mereciam ser xingados. Mas não daquela forma.
“Mas como brasileiro, pela própria ‘formação’ da nossa sociedade, com tanta mistura de raças, cores, religiões, etc, fica dificil fazer uma avaliação mais racional do que aconteceu.
O problema de tudo isso é a hipocrisia que o ser humano carrega consigo de sempre querer esconder os sentimentos que a sociedade julga como impróprios.”
Então você acha que o discurso raivoso de Richards, pelo qual ele se desculpou diversas vezes e se disse extremamente envergonhado, pode ser aceito? Eu posso tentar compreender a atitude dele e esperar que ele volte a fazer comédia. Mas não posso fazer apologia a esse discurso racista.
Todos temos preconceito. Afinal, preconceito é a assimilação prévia de um conceito. Não é ainda um conceito formado, mas uma idéia dele que se tem antes de se obter a visão do todo. Fazemos isso a todo momento para não sermos assaltos por alguém mal-encarado, para não sermos passados para trás em negociações, etc. Só que preconceito contra determinada cor de pele é um assunto sério. Você está defendendo algo que o próprio Richards condenou.
“Não existe ninguém que não tenha um ‘preconceito’, quem falar que não tem preconceito algum, sabe que está mentindo e sabe que não está enganando ninguém, senão não existiriam piadas sobre loiras, negros, portugueses, judeus, evangélicos, cariocas, paulistas, mineiros e afins.”
Acho interessante você conhecer o âmago de cada ser humano que habita o planeta para saber que “Não existe ninguém que não tenha um preconceito”. Veja bem: eu não disse o contrário.
Diego continua:
“Não sou adepto da ‘desculpa’ que muitos brancos dão, dizendo que os negros são mais preconceituosos que os brancos, é mentira, hipocrisia, acredito que os níveis de preconceitos sejam exatamente os mesmos dos brancos para com os negros e vice-versa”
Não duvido. Porém há uma diferença histórica muito importante nos dois preconceitos.
E Diego vai além:
“a diferença é que um negro pode fazer uma musica chamando um branco de ‘white-ass’ ou ‘crack-ass’ e as mulheres de ‘white-chicks’, que isso é interpretado pela nossa sociedade hipócrita como ‘liberdade de expressão’, enquanto um branco chamando um negro de ‘niggah’ é visto por essa mesma sociedade como um ‘racista filho da puta’.”
OLHE o vídeo novamente sem o SEU preconceito. O Richards não chama os negros simplesmente de Niggers. Ele fala coisas bem piores.
E os brancos não foram escravizados pelos negros. Há uma diferença histórica muito grande nas duas situações propostas no teu comentário. Chamar um negro de nigger é ofensivo porque ele não gosta de ser chamado assim por um branco. Se um branco fala isso, ele obviamente quer irritar o negro. Mas não tem grande prejuízo para o branco ser chamado de crack-ass. Se não fosse pelo histórico do racismo no mundo, não haveria problema em se chamar o negro de nigger, assim como não há problema em brincar com um gordinho, com uma loira, com um português. Ninguém escravizou gordinhos brancos, loiras e portugueses.
Diego diz:
“Não existem certo ou errado nessa historia, do mesmo jeito que um erro não justifica o outro, os negros conquistaram sua liberdade de expressão depois de muita luta e muito sangue, ao ponto de terem de certa forma invertido o jogo, onde uma letra de hip-hop pode conter todos os similares pejorativos de ‘branco’ e ser considerada poesia, enquanto um Michael Richards, pelo fato de falar ‘niggah’, já ser um fato ‘criminoso’ o suficiente para acabar com a sua carreira.”
Se fosse só por ter dito “nigger”, talvez os fãs conseguissem assimilar melhor o seu erro. Você distorce a verdade, o contexto e visão geral da situação para tecer uma teoria - a qual você não parece nem compreender direito. Parágrafo respondido no anterior.
“A palavra Niggah é pesada? Não tenho a menor duvida disso, mas alguém ja viu alguem perguntar para um branco ou para uma mulher o quanto eles se sentem ofendidos com os ‘apelidos’ cantados em um rap?”
Não perguntaram, porque eles não ficam ofendidos. Vai dizer que você fica? Não há uma carga social embutida nos apelidos dados aos brancos. É preconceito e estereótipo, assim como qualquer apelido que visa a qualificar e problematizar um indivíduo - mas não tem o poder de avivar a memória da escravidão e subjugação de pessoas de determinada cor de pele.
Diego ainda diz:
“Enquanto esse tabu existir, nós nunca vamos superar o problema real do preconceito, que é a hipocrisia que está dentro de nós.
Aos nossos irmãos negros, a unica coisa que eu posso dizer é que admiro a luta pela liberdade que eles travaram no passado, e reconheço toda a injustiça e filha-da-putisse que nós brancos fizemos, mas os negros não precisam de leis ‘contra-racismo’, cotas em faculdades e nada disso, pelo simples fato de nós sermos todos iguais.”
Não há menção em contrário no texto.
A revolta de Sérgio
“Não preciso dizer mais nada..parabens Diego! Ah, se todos tivessem essa visão realista e não pejorativa, que alguns racistas camuflados tem, e se aproveitam de qualquer deslize, movido pela raiva, de alguem para aflorar seu auto-racismo. Branco, negro, indio, japonês…é tudo farinha do mesmo saco. Na hora da raiva todo mundo fala besteira,seja branco, negro, azul ou roxo. Nem 100% negro , nem 100% branco, somos uma mistura de raças… Quem tem grana não sofre preconceito..seja ele da cor que for…”
Como você sabe que aqueles negros que foram insultados por Richards não tinham grana? Na verdade, lendo de novo, vejo que a sua revolta não é em relação ao texto. É somente uma resposta encorajadora ao comentário do Diego, que foge completamente da proposta do texto.
A menos que as primeiras frases se refiram a mim: “Ah, se todos tivessem essa visão realista e não pejorativa, que alguns racistas camuflados tem, e se aproveitam de qualquer deslize, movido pela raiva, de alguem para aflorar seu auto-racismo”.
Ou seja, por escrever sobre o episódio, sou um racista camuflado, que me aproveito de qualquer DESLIZE para aflorar meu AUTO-RACISMO. Hm. Ótima teoria. Então, pelo deslize ser movido pela raiva, eu deveria congratular quem erra? Então, a conclusão a que você chega é que eu tenho preconceito contra mim mesmo, um auto-racista? Ah, sim, acho que isso esclarece tudo.
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