O texto a seguir foi escrito em fevereiro de 2004. É baseado em fatos reais, ocorridos em janeiro daquele ano, entre as praias de Jurerê e Canasvieiras, em Santa Catarina.
______________ I
Quando eu abri a porta, uma sombra enorme desabou sobre meus pés. Era o Jorge.
- Por que não me chamou, meu? – perguntei.
- Que tu acha que eu tava fazendo nessa porta? Tava tentando te chamar, mas a porta não abre por esse lado.
- E como a gente sai depois?
- Não sei. Não sei mesmo. Deve ter outra passagem secreta ou algo assim. Isso aqui é uma loucura.
Realmente, uma loucura. Para onde quer que eu olhasse, eu via fumaça. Muita fumaça. Estávamos num salão enorme, do qual não conseguíamos divisar o fim. Em toda sua extensão visível, homens e mulheres dançando muito. À nossa direita, numa enorme torre de vidro, víamos os DJs, que também apareciam em telões espalhados pela festa.
Meu deslumbramento foi interrompido por um travesti gigante, que me deu boas-vindas e me entregou o que chamou de “kit sobrevida”. Peguei a caixinha azul que “ela” me oferecia e espiei dentro. Não vi nada. Despejei o conteúdo na mão: uma pílula, também azul. Nessa hora, uma loira linda chegou ao meu lado e cochichou: “toma isso, que vai te fazer beeeem”.
______________ II
Queríamos um pouco de diversão. Ali, no centro daquela praia quase abandonada de Santa Catarina, nada havia. O fator mais empolgante daquele calçadão era um grupo de argentinos malucos gritando muito, a maioria em cima de mesas na frente de um bar. Mas nós queríamos dançar, ver garotas bonitas em trajes ínfimos, curtir um pouco. Decidimos, então, indagar a respeito do horário dos ônibus numa farmácia, para tentar chegar a algum lugar mais habitado e animado. Infelizmente, não havia mais ônibus àquela hora. Jorge insistiu, perguntando se tinha algum lugar perto dali bom para dançar. A mulher, uma velhinha que tossia a cada três palavras, nos surpreendeu dizendo que sim, havia uma ótima boate a alguns minutos de distância a pé. Animou-se muito ao falar da boate. Disse que era – cof - a melhor de todas. Que a filha – cof, cof - freqüentava, que todos adoravam.
Pela orientação dela, chegaríamos em 15 minutos, no máximo. No entanto, quase 40 minutos de “acho que é por aqui”, “não, não, tá tudo errado” e “perdido é apelido” depois, entramos num supermercado 24h que eu nunca havia visto na vida, sem ter a mínima noção de como chegar à boate da velhinha.
Lá dentro, surpresa. Mesmo àquela hora, contrastando violentamente com o centro da cidade, o supermercado estava lotado de jovens, crianças e adultos. Pegamos um energético cada um e os colocamos, discretamente, num refrigerador, pois não estavam gelados. Enquanto esperávamos que os energéticos se refrescassem, trovamos umas baianas, que, entre goles de capeta e tequila, gritos de “meu rei!” e risadas, não pareciam entender o que “boate ali perto” significava, e perguntamos para o atendente do caixa se ele sabia a localização exata da boate.
- Sei, sim. É fácil.
E explicou detalhadamente. Se não fossem os energéticos, teria dormido ali mesmo, de tão chata, detalhada e demorada a explicação do cara. Não consegui manter minha atenção focada na figura. Ao contrário do Jorge, que, sob efeito da cafeína, tinha os olhos fixos no atendente – nem piscava -, fiquei viajando e calculando qual seria o peso de todas aquelas caixas de leite empilhadas. Algum tempo depois, quando o Jorge declarou finalmente que havia entendido, desisti dos cálculos absurdos e contemplei o vendedor. Ele estava muito feliz por nos ter ajudado. Já principiava a iniciar explicação sobre outro assunto nada correlato – só pelo prazer de explicar -, quando Jorge o calou lhe pegando a mão e agradecendo “muitíssimo, muitíssimo”. Acrescentou ainda que fora “uma ótima aula” e deu-lhe um tapinha no ombro, pouco antes de sair.
- Mas tu realmente entendeu como chegar lá? – perguntei.
- Claro, claro! Temos que dobrar no trevo. É fácil.
- Como se tu soubesse onde fica o trevo.
- Não complica.
______________ III
Será que fazia bem mesmo? Olhei para o lado e vi o Jorge dançando de um jeito muito esquisito. Ele abanava os braços de um lado para o outro, enquanto rebolava e gritava algo como: “Êeeee”. Perguntei o que ele estava fazendo, e ele, visivelmente alterado, gritou – do lado do meu ouvido –: “tô me sentindo beeem! Dançando muuuito!”. Sua voz, alta e rouca, e seu jeito de dançar, estapafúrdio, me fizeram concluir que ele havia tomado a pílula.
A música ficava, cada vez mais, alta. Em cima da torre de vidro, onde ficavam os Djs, havia uma espécie de farol cuja luz variava de cor e iluminava todos lados da pista de dança. Um Dj gordinho, que antes só rebolava e dançava exatamente como o Jorge, agora também mexia nuns botões e disparava alarmes, sirenes e sinais sonoros, que deixavam o público ainda mais insano.
______________ IV
Pelo meu relógio, era 1h33 quando entramos num posto de gasolina para ir ao banheiro. Detrás de um carro, surgiu um homem alto, magro e branco, muito branco, que trajava o uniforme do posto. Sua figura me pareceu exótica demais para alguém que trabalha num posto de gasolina. Cabelos brancos, tez branca, nariz comprido, olhos azuis-claros. A palidez albina do homem só não chamava mais atenção do que seus olhos. Aqueles globos oculares pareciam mais perdidos do que o Jorge e eu. Não podia depreender se o sujeito nos mirava os dois ao mesmo tempo ou um só ou o chão, tamanha era sua desorientação. Primeiramente, pensei que elas seguiam uma lógica; talvez estivessem sempre em lugares opostos ou sempre se locomovessem da forma mais absurda possível, mas essas duas teorias foram refutadas. Um minuto ou horas depois – perdi a noção do tempo -, quase hipnotizado, cheguei à conclusão de que o homem tinha controle absoluto de suas pupilas e se utilizava disso para troçar comigo. Então, não sei se para confirmar minhas suspeitas ou para me apavorar de vez, as pupilas pararam no centro de seus olhos, deram algumas voltas em grande velocidade e sumiram completamente.
Eu, que não escutava uma palavra do diálogo que se seguia entre o Jorge e o homem do posto, fiquei assombrado pela ausência das pupilas. Comecei a procurá-las, talvez um pouco indiscreto. Arregalei os olhos, cheguei mais perto. Nada. Voltei meu olhar para o Jorge e descobri a tática do calhorda. Ele só tinha condições de falar e falar e falar com o indivíduo das pupilas doidas devido ao seu posicionamento estratégico. Não tinha percebido ainda, mas o Jorge não olhava para o homem do posto. Tinha sua visão fixa na bomba de gasolina e simulava anuência ou desaprovação com gestos exagerados, para distraí-lo.
Depois, enquanto me encaminhava ao banheiro, carregava comigo a terrível sensação de que uma das pupilas do homem, pelo menos, havia se deslocado levemente da órbita ocular para acompanhar-me no trajeto. No banheiro, fechei a porta e tranquei-a, mas, mesmo assim, preocupei-me com a possibilidade de haver alguma fresta pela qual as pupilas pudessem espiar. Aquele homem do posto me deixou paranóico.
______________ V
Eu já havia tomado mais de seis energéticos desde o início da nossa epopéia. Que eu me lembrava, um no barzinho dos argentinos, dois no supermercado, um na estrada escura – o qual não sei de onde o Jorge tirou – e dois ali na festa. A quantidade máxima de energéticos que se pode tomar num dia é cinco, segundo os médicos. Parece que cada um equivale, em nível de cafeína, a uma xícara de café. O diferencial do energético, imagino eu, deve ser a taurina. Com esse nome, não pode fazer bem.
No entanto os únicos efeitos ruins que esse monte de cafeína parecia estar me causando eram a impossibilidade de ficar parado por mais do que sete segundos e leves tremedeiras nos pés e nas mãos. Era interessante tentar delimitar exatamente o que eu estava pensando a cada momento. Eu não conseguia pensar em uma coisa só. Imaginava dez situações e fazia dez tipos de análises e comparações ao mesmo tempo. Os pensamentos fundiam-se e confundiam-se. Tudo se passava velozmente, como se eu estivesse num filme, e alguém estivesse apertando no botão de avançar a fita. Todos pareciam correr de um lado para o outro e dançar como se o maior vulcão da Terra – aquele que não existe -, o maior furacão, a maior enchente, o maior tornado, o maior suicídio coletivo e a maior catástrofe estivessem prestes a abater-se sobre nós.
Os gritos eram ferozes, com vontade. Festa! Festa! Festa! Os olhos todos arregalados. A boca semi-aberta. O ar da dança. O frescor do energético. Do guaraná. Das pílulas. Os pensamentos todos vinham e iam muito rápido. Impossível acompanhar tudo. Mais e mais energéticos. Alguém teria de ceder. Corridas em torno da Torre dos Djs. Gritos de “Eu sou o criador do Moonwalking”. Gritos de “Michael Jackson é o rei”. “Elvis não morreu, Elvis é meu vizinho”. Dança, dança. Energéticos. Festa! Festa! Festa!
______________ VI
Aliviados, rumamos para a estrada que nos levaria à boate. A escuridão conferia um tom assombroso ao caminho que teríamos de seguir. Não se via o fim da estrada nem o palmo da minha mão. Dos lados, só mato. No céu, pontos luminosos, que, segundo Jorge, eram “dos holofotes da boate”. Carros com muita pressa passavam por nós a todo instante. Muitos dos motoristas, decerto, já estavam bêbados; viam, possivelmente, aqueles dois riscos estranhos mexendo-se à sua frente como duas mosquinhas quaisquer ou como pinos de boliche.
- Cara – disse eu -, tô com medo.
- Pois nós temos de enfrentar os nossos medos! – entusiasmou-se Jorge. – Aquele cão que está vindo em nossa direção, por exemplo. Temos que o enfrentar!
- Quê? Qual cão?
- Ali adiante. Não vê o vulto? É um rottweiler, tenho certeza.
- Rottweiler? Tá maluco? Não vejo nada!
- Pois eu rio do perigo! Hahaha. Ele acha que pode nos amedrontar com esse latido furioso.
- Onde? Que latido?
- Opa, ele começou a correr. Isso não é bom.
- ONDE?
- Medroso.
______________ VII
Pensei em ir ao banheiro e, dez segundos depois, eu já estava lá. Fechei a porta e decidi me aliviar de todos aqueles líquidos que incomodavam a minha bexiga e assolavam meus neurônios. De repente, ouvi um barulho. Um zíper. Havia mais alguém naquele banheiro. Isso é absolutamente normal num banheiro grande, pode ficar tranqüilo. Não tem problema que mais gente use os outros vasos. Os vasos estão aí para isso. Eles foram criados com o propósito de servir à população no momento em que esta mais precisa dele. São esses os momentos da verdade que cada um de nós tem de viver. O momento em que se fica a sós com o vaso. Só tu, a bunda, os dejetos e o vaso. Cúmplices. Zíper novamente. Talvez fosse a mesma pessoa indo embora ou outra pessoa entrando. Estava começando a ficar tumultuado esse banheiro. Fechei o meu zíper e imaginei se isso teria ocasionado a mesma curiosidade e preocupação nos outros. Decidi brincar um pouco. Fechei e abri o zíper várias vezes, para confundi-los. Eles pensariam que o banheiro estivesse sendo atacado por milhares de zíperes ou que um monte de gente tivesse decidido usar o banheiro na mesma hora. Hehe. Ficariam com medo, muito medo. Fechei e abri o zíper mais uma porção de vezes. Não contente, decidi trancar e destrancar a porta do cubículo onde eu estava. Fiz isso com muito prazer e muito rápido. Os outros deviam estar se perguntando quem fazia aquele barulho. Comecei a batucar na porta e levantar e abaixar a tampa do vaso sanitária. Fazia tudo ao mesmo tempo. Os outros deviam estar indo à loucura! Haha. Abre o zíper, fecha o zíper, tranca a porta, destranca a porta, levanta a tampa, abaixa a tampa, soca a parede, soca a porta, grita, grita. Isso. Haha! De repente, alguém começou a fazer a mesma coisa que eu, no que acreditei ser o cubículo imediatamente ao lado. Também abria e fechava seu zíper. Batucava na porta. Levantava e abaixava a tampa do vaso. Mas eu não gostei de ser imitado. Me senti muito estranho e parei com todas as minhas atividades ali. Tremi um pouco. O outro continuava. E ria alto o canalha! Estava mais transtornado que eu. Imagina se… hehe.. Imagina se aquele fosse o dono do posto! Imagina a surpresa que eu teria. Com tanto energético, seria divertido ficar olhando pras pupilas daquele homem. Imagina… Imagina se é ele mesmo. E se ele veio atrás de mim. E se ele veio ver o que eu estou fazendo. E se ele sabe de tudo que eu faço. E se ele consegue me ver com aquelas pupilas agora mesmo. E se ele estiver entendendo o que eu estou pensando. Aquelas pupilas podem estar em qualquer lugar. Qualquer lugar! Dentro do vaso, dentro do lixo, na fresta da porta, no teto!
______________ VIII
Às 2h30 da manhã, encharcados de suor, chegamos à boate. Até hoje, não vi nada maior do que aquele monstro. Era muito maior do que qualquer shopping. Muitos andares e muita gente andando pelas cercanias. Naquele fim de mundo, aonde só os mais bravos – ou os precavidos, que planejavam - podiam chegar, localizava-se o que os cartazes coloridos chamavam de “O Maior Espetáculo da Terra”.
De acordo com um panfleto, destacavam-se, naquele dia, as seguintes atrações: DJS Nacionais e Internacionais, Bandas, Banho de Espuma, Confetes, Bungee Jump, Tatuador Maluco, Malabaristas, Strippers de Ambos Os Sexos, Seis Pistas, Enorme Lan-House e Labirintos de Fumaça.
Estávamos na fila, entediados, quando uns quatro magrelas que gritavam muito, sem motivo aparente, pararam ao nosso lado. Um dos gritos, contudo, me chamou a atenção: “Ronaaaldo Feeeeldmann!”. Perguntei pro Jorge, e este também não sabia quem era Ronaldo Feldman. Virei-me para o grupo. Um deles, o mais baixinho, tinha uns dez ingressos na mão. Não tardou, ele quedou a chacoalhar freneticamente a cabeça e, com a boca bem aberta, berrou novamente: “Ronaaaldo Feeeeldman!”.
Então, finalmente, prosseguiu seu discurso:
- Vocês NÃO conhecem o Ronaldo Feldman? Hein? Que me dizem? Hahaha.
Qualquer coisa que ele havia tomado, certamente o havia em excesso. Os gritos não paravam. A fila lenta.
- Ei, garotas – disse o magrelo baixinho, que tinha cabelo espetado e um piercing no nariz, para as gurias atrás de nós. – Vocês NÃO CONHECEM o Ronaldo Feldman?
Elas não souberam responder. O baixinho, gesticulando muito, com os olhos bem abertos, e articulando cada palavra como se fosse a última, continuou:
-Se vocês não conhecem, eu conheço!
Com o indicador, contou quantas eram, “cinco, cinco!”, e saiu correndo em direção à bilheteria. Enquanto ele ia saindo, o amigo contou de novo e corrigiu: “são QUATRO, e não cinco!”.
Alguns minutos passaram-se, e ele apareceu de novo, gritando: “Ronaaaaldo Feeeeldmannnn!”.
- Não disse que eu conhecia, hein? Hein? Hahaha. Aqui, aqui, cinco ingressos!
E saiu pulando. Ao fundo, ouvia-se “RONALDO FELDMAN!!”.
______________ IX
Pensei em sair correndo do banheiro e já vi a porta aberta e minhas pernas em pleno movimento. Fui ao bar e pedi mais um energético, para me acalmar um pouco. Mas o energético não servia para acalmar - só lembrei depois de ter tomado dois. Dali, avistei o chamado “túnel de fumaça”. Parecia um labirinto. Lá dentro, todos se beijavam. E outras coisas mais. Eu não conseguia compreender aquilo tudo. A fumaça me perseguia. As luzes – as azuis, principalmente – me deixavam tonto. As sirenes do Dj gordinho me causavam mal-estar. Iiiiióóónn. Apavorado, senti a presença das pupilas doidas do homem do posto. Eu sabia! Os gritos de “êêê”. No telão, índios batucando e atirando flechas. Aquele cheiro de chocolate. O simulador de brisa marinha. O som das ondas. O ventinho gelado. As luzes do chão, as passagens secretas. Muita gente. O uniforme do posto. Os travestis olhando tudo do alto. Pássaros voando. Cada vez mais escuro. Os trapezistas. Mais escuro. Os malabaristas. Agora tudo claro demais. As strippers. As luzes azuis. O buraco! Alguém me observando. Alguém gritando! Mais escuro. Iiiiiióóónnn. Eu. Eu. Eu desmaiando.
______________ X
Subimos umas escadas gigantescas desfilando pelo tapete vermelho estendido sobre elas. Chegando ao topo, dois seguranças nos abordaram. O maior deles, com uma voz gutural, perguntou:
- Vão entrar?
Pensei comigo: isso é um teste. Qualquer piadinha, qualquer riso, qualquer piscada mal-intencionada, e eles nos jogam para fora. Imagina. Quem é que pergunta “vão entrar?” a alguém no topo de uma escadaria enorme que culmina somente na porta da boate. Não, acho que ficaremos aqui na frente papeando com vocês. Não, a gente sofreu tanto só pra ver se essa escada agüentava o peso do Jorge. Não vamos entrar, estamos só testando os degraus.
- Vão entrar? – ele perguntou de novo.
Batalhamos muito para chegar até aqui. Passamos por tantos e tantos obstáculos. Caminhamos, corremos. Tive medo. Conversei com uma velhinha. Trovamos baianas. Tomamos energéticos. Até ouvimos falar de um certo Ronaldo Feldman. Estamos suados, cansados, loucos por um pouco de diversão. E ele pretende nos barrar. Só porque é alto e grande e tem cara de mau. Só porque usa um terno.
- Nós vamos entrar de qualquer jeito, nem tentem nos parar. Já sofremos demais! E não se engane pela estatura do Jorge nem pela minha cara de bobo. Nós temos o Kung-Fu! Querem briga? Só se for agora!
E parti pra cima do segurança menor. Antes que meu soco chegasse a seu destino, no entanto, o segurança mais forte agarrou meu braço. O Jorge tremia. Tinha os olhos abertos, escancarados de tanto terror. Congelei.
- Você é louco, rapaz? Pode entrar. Mas, se eu souber algo de vocês, preparem-se. Porque somos setenta e cinco seguranças. O maior tem 2,5 m e uma mão cujo tapa é capaz de matar um rinoceronte grande. Entrem logo, antes que eu mude de idéia.
______________ XI
Acordei deitado no banco da parada de ônibus. Com dificuldade, fiquei em pé e vi o Jorge vindo em minha direção. “Esse louco”, pensei. “Que será que ele quer? Deve estar sob efeito daquela droga ainda”. Estremeci. Em poucos segundos, milhares de visões inebriantes da festa perpassaram pela minha mente. Eu via dublês do Michael Jackson dançando comigo e com o Jorge, umas garotas vestidas de Mulher-Gato e pílulas azuis. Me lembrei do travesti gigante, que me ofereceu as pílulas. Depois, o próprio Jorge me as ofereceu. Será que eu aceitei? Acabamos eu e ele lá na torre de vidro, junto com os Djs, inclusive o gordinho, das sirenes hipnóticas. Muitos drinques, lanchinhos e pílulas azuis, novamente. Será? Mais fumaça. Jorge estava quase chegando. Me vi dançando a conga com a Gretchen. Ou era a filha dela? Sei que a Tiazinha estava lá, o Popó e sua namorada. E o Zorro. O Tyson parece que foi expulso por morder a orelha de um garçom. Sirenes. As luzes azuis. Opa, lésbicas. As pílulas. As pupilas. O uniforme. Apresentadoras de TV! Cantamos parabéns a você para algum dos Djs. Vi o Ratinho. Umas ex-colegas de aula olhavam para cima e abanavam. Eu abanava de volta, muito contente. Túneis. A fumaça. E o pessoal dançando como o Jorge, chacoalhando as mãos no alto e rebolando até chegar quase ao chão, enquanto berravam “êeeee”. O Zorro me cumprimentou logo depois de abraçar o Dj gordinho. Será que o Zorro também é Dj?
______________ XII
Entramos. A primeira impressão que tive foi a de que fôramos enganados, pois só havia ali uma sala pequena, com sofás, tapetes e mesas. A única luz do ambiente era provida por frestas nas paredes. Encostei meu ouvido na parede a fim de escutar o que se passava do outro lado, mas não pude ouvir nada. Droga! Silêncio absoluto numa sala escura não era exatamente meu conceito de diversão.
A maioria das pessoas que entraram na sala atrás de nós não parecia tão estupefata quanto a gente. Fora um cara de cabelo amarelo e camiseta do Sex Pistols, o qual, logo que entrou e viu a sala, bradou: “espetáculo da terra o c… Bando de Filhos da P…!”. Logo, passou a socar a parede, enquanto sua namorada o tentava dissuadir de derrubar o concreto. Dois ou três casais, pelo contrário, gostaram dos sofás e logo se esparramaram sobre eles. Outros estavam tão fascinados pela idéia da festa, que nem notaram que acabavam de entrar numa sala vazia e escura. Um deles, de óculos escuros, viu um tapete e gritou:
- Olha, olha! É o Dj Traquinas!
Os outros riram e começaram a dançar.
Quando a sala já estava quase lotada de gente, percebi que o Jorge havia sumido. Devia ter descoberto alguma coisa. Então, enquanto a maioria procurava se acomodar por ali, eu procurava uma porta ou uma saída qualquer que me levasse aonde a verdadeira diversão estava. Provavelmente onde eu encontraria o Jorge. Filho da mãe, mal-educado. Em vez de me chamar, fora sozinho.
Tateei, tateei até que encontrei uma maçaneta, no meio da parede menos iluminada da sala. Girei o trinco, e o que parecia ser uma porta camuflada abriu. Segui um caminho bem iluminado durante alguns segundos e vi mais uma porta. Naquele momento, não sabia a magnitude da loucura que estava cometendo ao abri-la.
______________ XIII
Percebi que estava sem camisa. Que será que aconteceu com ela? E sem tênis! Pelo menos, eu conservava as calças.
Lembro-me de mãos de unhas vermelhas. Faltavam três passos para o Jorge chegar. Gritos. Luzes azuis. Pílulas. Pupilas. Iiiióóónn. Um bilhete. Jorge estendeu a mão. Mas eu não podia permanecer ali. Por isso, saí correndo em direção a qualquer lugar bem longe. Jorge gritou:
- Calma, que você vai melhorar.
Não dei mais do que dez passos correndo e caí no acostamento. As pílulas estavam envoltas em embalagem de plástico, bem fina. As pupilas me perseguiam. Estavam em todo lugar. Garotas de cabelo negro, cintos rosa-choque e pés delicados. A dança frenética. Um bilhete, eu lembrava de um bilhete. Pílulas. O uniforme do posto. Botei a mão no bolso, nada. No outro, um papelzinho amarelo. Era um ingresso como o que havíamos comprado para entrar na festa. Virei-o e li uma mensagem:
“Gostamos muito de conhecer vocês.
Apareçam mais vezes.
Um grande abraço do amigo
RONALDO FELDMAN.”
______________ XIV
Nesse momento, todo o filme mental da memória da noite passada resolveu se desenrolar na minha mente.Jorge vinha de novo em minha direção. Parecia cansado, mas feliz. Ria-se sozinho e andava quase tropeçando. O sol já assomava atrás de sua cabeça. Formava-se um dia bonito, de céu azul e nuvens brancas. Aspirei o ar puro da praia. Não tinha reparado que a danceteria ficava pertinho do mar. Não avistei nenhuma onda. Somente marolas pequenas, ondulações mínimas na água. Dia bom para esquiar. Deslizar suavemente pelo mar, com as mãos estendidas e a mente concentrada em um só objetivo. A planície molhada ali em frente infundiu-me uma sensação de paz tão boa, que me fez relaxar e parar de pensar. Tudo fazia sentido, naquele momento de brisa marinha.
- Jorge! – gritei, rouco. – Você NÃO CONHECE o Ronaldo Feldman?
Risadas. Ele sentou ao meu lado e tirou do bolso uma foto. Nela, ele aparecia dançando com uma loira linda, o travesti gigante que me oferecera o “kit sobrevida” e o homem do posto, o das pupilas doidas. Atrás dos quatro, o Zorro fazendo careta.
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6 comentários até agora ↓
1 João "Paquito Erótico" Kolling // 17/12/2007 às 8:20
Moral da história: não comeu ninguem.
2 João "Paquito Erótico" Kolling // 17/12/2007 às 10:35
SE VOCÊ NÃO LEU TUDO EU RESUMO:
“Fui numa rave na praia, onde me entupi de bala e energético, dei o rabo pra um traveco e foi eletrizante e radical!”
3 gustavo // 17/12/2007 às 14:52
hshshshshs
tu foi o único que leu e entendeu errado ainda
4 João "Paquito Erótico" Kolling // 17/12/2007 às 15:18
soh quis tirar uma onda
eu tiro onda neh
5 Nando // 18/12/2007 às 12:01
“Decidi brincar um pouco. Fechei e abri o zíper várias vezes, para confundi-los.”
Que momento bizarro! No mínimo devia tá podre de bêbado já!
6 gustavo // 19/12/2007 às 0:02
na época, eu não bebia nada, hehe.
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