Uma pedra no meio do caminho, disse Drummond, o Marujo. Drummond, o Marujo, chamou Peter, o Pan, por que você não vem até a sala e compartilha conosco um bocado daquelas suas idéias engenhosas? Temos queijo fresquinho e a erva que tanto aprecia. Venha, venha. Não precisa me olhar desse jeito. Este aqui, cavalheiros, é Drummond, o Marujo, o grande escritor. Nem tentem perguntar-lhe o verdadeiro nome, pois este até mesmo a mim é omitido. Ficamos, portanto, reféns desse marujo que ousa nos atormentar após o Drummond. Drummond, o Marujo, não seja tímido nem mal-agradecido. Sente-se conosco. Pegue aqui seu chimarrão. Mandamos trazer lá de Três Passos, não é mesmo, Ivan, o Novich? Sim, sim, acolheu logo Ivan, o Novich. Enviamos dois empregados de inteira confiança, os quais tiveram de utilizar-se de todas as suas habilidades lingüísticas, frugais e atléticas para cumprir sua tarefa. Foram os dois de carona com um ex-fuzileiro naval dos mais inconseqüentes, segundo me contaram. Chegando à sua terra, se assim posso me referir à maravilhosa Três Passos, meu caro Drummond, o Marujo, tiveram os empregados muitas dificuldades para comprar essa exótica erva da qual você, pelo que noto, sorve o líquido neste momento, sabe-se lá como. Mais da metade dos cavalheiros do clube, recomeçou Peter, o Pan, nem ao menos sabia da existência desse produto. O resto dividia-se entre os que tinham vaga noção do que se tratava, os que fingiam saber e entender todos os pormenores da bebida (que, por fim, tiveram de se entregar, quando indagados com mais veemência) e os que haviam escutado rumores de que sim, lá tomavam esse tipo de coisa. Ninguém aqui dentro sabia o nome pelo qual chamam essa mistura com água.
Ficamos estupefatos com o fato de que você, Drummond, o Marujo, o grande escritor, disse Ivan, o Novich, pode beber com gosto esse tal de chimarrão, que nada mais é do que fezes moídas de uma vaca malhada misturadas com água quente. Jackson, o Da Montanha, chegou a contar-nos que, por vezes, dependendo da classe social da família, bebe-se um chimarrão mais requintado, com direito a ovos de búfalo e baba de camelo. Esse assunto nos causa tanta curiosidade –e, em alguns, repulsa, devo confessar -, que adoraríamos poder contar com algum tipo de história ou explanação mais detalhada desse bizarro costume que vocês do sul cultivam.
Sente-se aqui, sente-se, disse Peter, o Pan. Você está pálido. Por que isso? Esse chimarrão não lhe agrada? Pois tenho de confessar uma coisinha ou duas. Não trouxemos a erva de chimarrão da sua terra, como declaramos anteriormente. Enviamos os dois empregados, mas àquela época ainda não sabíamos o nome da erva nem como se parecia. Por isso, os dois tiveram tremendas dificuldades. Disseram-me que os habitantes de Três Passos não foram muito amáveis e andavam vestidos de um jeito bastante diferente. Usavam calça larga, chapéus, lenços vermelhos, botas grandes. E, pelo que se apurou, trataram nossos dois empregados com absoluto desdém e desconfiança. Os dois foram, inclusive, levados para um porão, onde um sujeito autodenominado delegado resolveu inquirir-lhes o que faziam ali, o que procuravam, da onde eram. Havíamos dado ordens expressas para que mantivessem o mais cauteloso sigilo, o que só serviu para complicar-lhes as coisas.
Bem, a verdade é que um dos empregados morreu, depois que fora obrigado por um nativo a beber o tal do chimarrão. Não me compreenda mal. O chimarrão não o matou. O que o matou foi a língua, que não conseguiu se conter e exclamou: “mas que porcaria de bebida quente!”. Um dos homens de calça larga passava galopando e, depois de gritar, “quente tu vai ficar agora, guampa torta!”, deu-lhe um tiro na testa. O outro empregado, muito assustado, tratou de se adaptar à sua terra. Aprendeu a falar “tchê”, como manda a etiqueta, e durante alguns dias até se aventurou a beber o chimarrão. Pegou carona de volta com o mesmo ex-fuzileiro naval e chegou aqui ontem, exatamente três meses depois de o termos enviado.
Durante esse tempo todo, claro, tratamos de fazer nossos arranjos. Contatamos Jackson, o Da Montanha, vetusto de 103 anos que mora no alto de um morro do qual nunca desceu, que, por acaso, tinha uma vaca malhada em casa e sabia como preparar essa poção. Custou-nos caro, porém economizamos bastante ao cancelar a baba de camelo. Mas eu não entendo por que você não gostou: até os ovos de búfalo mandamos colocar.
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