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O Miojo Transcendental

19/12/2007 · 3 comentários

Publicado anteriormente na finda Folha de Novo Hamburgo.

Eu tenho coisas a confessar. Como não vou muito à igreja, uso este espaço para isso. Vocês, leitores, diante da minha coluna, são como padres no confessionário. Vocês me escutam entrar, dizem “bom dia” e começam a ouvir. Pois então prestem bem atenção…

Céus, não posso mais guardar isto pra mim. Eu confesso: minha comida predileta é o miojo, embora socialmente eu diga que seja pizza. Não quero aqui desmerecer a pizza. Ela tem seu valor no campo das refeições fantásticas. O miojo, no entanto, tem valor máximo no campo das refeições divinas. Comer miojo é uma celebração à vida. O miojo, para mim, é o mesmo que a yoga para o yogue ou a prece para o padre. É o instrumento para expandir a consciência, para atingir o nirvana, para trespassar o nível meditativo, para ter a meia hora de mastigação menos saudável e mais saborosa da minha existência.

Meu amor por essa iguaria se deve, em grande parte, à especialidade do miojo que eu preparo. Para se fazer o miojo transcendental, basta muita fome e uma boa dose de irracionalidade. Abrir a geladeira é primeiro passo em direção à iluminação. Mas cuidado: não se pode deixar a porta da geladeira aberta por mais de 23 segundos ao catar os condimentos. Essa regra abrilhanta toda a operação, pois a torna divertida e deveras extenuante. Como não há tempo de ver tudo que se está pegando, deve-se agarrar todos os condimentos que parecerem promissores, principalmente os que envolvem queijo.

Alerta: derivados da calabresa, por mais atraentes que possam parecer, freqüentemente induzem à produção de gases altamente condenáveis na hora da meditação. Com a ajuda de um prato e uma faca, três fatias de queijo devem ser esquartejadas em pedacinhos menores, de formatos absolutamente caóticos. O elemento do improviso só tem a acrescentar ao clima de misticismo da receita. Quanto mais absurdos forem os cortes no queijo, melhor será a degustação. O presunto, esfaqueado com a mesma brutalidade, tem de ser restrito: uma fatia, apenas. Ao salame italiano não há restrições: pode ser cortado ou deixado inteiro, uma rodelinha ou 15.

Nesse ponto, assume-se que a massa já está pronta, dentro da panela. Escorre-se a água e toma o lugar dela um pouco de leite. Despeja-se na panela todo o caos preparado anteriormente. O tempero secreto, de origem indiana, que eu compro na padaria próxima à minha casa – cujo endereço não será revelado -, deve ser derramado sobre o miojo em fogo baixo. Depois, a colher vem a calhar, para mexer e remexer freneticamente o protótipo de comida boa.

Baseado no princípio tibetano de que “queijo nunca é demais”, pega-se o pacotinho de queijo ralado e mantém-se o foco, para não deixar nenhum pedacinho dentro do pacote. A batata-palha é o ingrediente final. Só os mais anarquistas e experimentalistas devem utilizá-la. Para isso, maceram-se as batatinhas com as mãos, de modo a reduzi-las a pó, praticamente. Se você ainda acha que está devendo para os princípios tibetanos, não tenha medo: colocar três colheres de requeijão não lhe fará mal. O resultado de tudo isso é uma combustão de energia, alegria, panela muito suja, tendinite e o bolso sangrando por causa de um miojo de quase R$10,00.

Vocês já leram minha confissão. Agora, podem determinar a minha penitência. Cinco ave-marias, três pais-nossos, oito fatias de pizza calabresa, seis de quatro queijos? Ou vão querer o endereço da padaria?

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