O helicóptero sobrevoou a Casa e deixou cair um enorme saco de lixo preto, que aterrissou com violência no teto. O saco se abriu, e Péricles Renato saiu dele, com um sorriso gigantesco e uma câmera na mão. Às costas, levava uma mochila cheia de microfones minúsculos, câmeras fotográficas e filmadoras, um walkie-talkie, uma caixa furtada dos ninjas, quatro facas, uma tocha e um grande estoque de balas de menta. O investigador fraudulento lhe ensinou que, em qualquer situação, uma simples balinha de menta poderia salvá-lo. Péricles conferiu a mochila e se deu por satisfeito. Mirou o elevador e repassou mentalmente os perigos que enfrentaria. Os especialistas lhe alertaram que, se os moradores o vissem, a possibilidade de esquartejamento seria grande. Eles estavam confinados ali há um mês, com pouca comida – só coisas saudáveis e ovos crus com pasta de amendoim, nas sextas-feiras – e nenhum contato com o exterior. Os participantes poderiam ter modificado seus hábitos completamente. Acordariam às 9 da noite, almoçariam a 1 da manhã, jantariam só às vezes e dormiriam - quando lembrassem de dormir - às 2 da tarde do outro dia. Provavelmente, a maioria já perdeu costumes diários, como falar e tomar banho.
Péricles Renato entrou no elevador e pressionou o único botão. Nos primeiros segundos da descida, começaram os barulhos. Era o alarme caótico. Como os moradores podiam agüentar? A sensação de ouvir aquilo era a mesma de se jogar de uma ponte com três ninjas lhe atirando estrelinhas e gritando “uáaaa” ou de ser perseguido por um nativo de cabelo espetado e gritos ensurdecedores cavalgando um leão selvagem numa planície africana. O elevador finalmente parou. Quando a porta se abriu, Péricles Renato utilizou o truque de ioga da Andorinha Kamikase, para se locomover até um ponto no fundo da sala sem ser visto. Agachado atrás de um sofá, ele perscrutou o recinto, à procura de qualquer rastro de gente. Minutos mais tarde, ainda agachado, chegou à conclusão de que aquele era o porão, planejado para ser o seu QG na Casa Bizarra.
Munido de uma câmera na mão e um cinto, que carregava um walkie-talkie, duas facas afiadas, três pacotes de balas de menta e outros acessórios, Péricles Renato subiu a escada que o levaria para o resto da casa. Abriu lentamente a portinhola e olhou ao redor. Não havia ninguém ali. O que havia eram gritos, e desta vez não vinham do alarme. Gritos de mulheres, de homens, de… Crianças. Não deveria haver crianças na casa. Agachou-se e fechou a portinhola, esgueirando-se imediatamente para debaixo de uma mesa. Ali, encontrou outra coisa inesperada: nacos de cocô, de produção aparentemente recente. Saiu dali com a mão no nariz, filmando cada detalhe, os produtores apavorados gritando no walkie-talkie: “Mas como?!?”. Imitando um leão selvagem no cio, Péricles ficou de quatro e engatinhou com classe e rapidez para o canto da sala, a fim de se ocultar atrás de um abajur. Ele não pôde conter um grito quando viu um macaco cair de um buraco no teto e correr em sua direção.
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