O viciado em apostas acordou com frio. Tinha fechado a janela, mas acordou com ela aberta. Tornou a fechá-la e apostou consigo mesmo que ainda não eram 2h. Olhou para o relógio: 1h47. Antes de voltar a dormir, resolveu fazer mais uma aposta. Que acordaria com mais de uma janela aberta. Sentiu-se apostando todas as fichas num único número, na roleta. Chances de 36 para um.
3h30 da manhã. Acordou sobressaltado. Sonhou que perdera tudo num jogo de pife. “Pife é para principiantes”, pensou, enquanto se dirigia ao banheiro. Ainda com sono, teve de esfregar os olhos com a mão desocupada para esclarecer se aquela cena era real. A janela do banheiro estava aberta. Esgueirou-se pra fora do banheiro, antecipando o que veria. Sim, a janela do quarto também estava aberta. Mas como? Ele morava sozinho. Um ladrão não ficaria abrindo janelas sem roubar nada. O travesseiro continuava ali, a TV também. Saiu do quarto, apostou que não veria nenhum ladrão. Acertou. Todas as janelas da casa estavam abertas.
Às 5 da manhã, acordou de novo. A tarefa de um apostador como ele era calcular possibilidades e antever resultados. Em 1995, baseado num rumor sobre uma unha encravada do centroavante Jardel, ele apostou contra o Grêmio, que vinha embalado por seis vitórias consecutivas. O grêmio perdeu, e ele ganhou muito dinheiro. Mas seu espírito apostador não previu o que ele presenciava naquele momento. Era uma noite fria. Uns 15 graus. A janela do quarto encontrava-se plenamente escancarada, pela terceira vez. Ao lado da cama, havia dois ventiladores, que estavam ligados na potência máxima. Mas ele nem tinha ventilador em casa! Correu para desligar os ventiladores e fechar as janelas.
Que fazer? Chamar a polícia? Apostar que um maluco tinha a chave de sua casa e decidira abrir janelas e trazer ventiladores com o intuito de congelá-lo? Vestiu blusão de lã, luvas e touca. Desligou as luzes e deitou-se. De onde surgiram os ventiladores? Cobriu-se com as cobertas e apostou que não resistiria ao sono. Acertou novamente.
Quando o despertador tocou, às nove da manhã, o apostador viu a janela aberta e quatro ventiladores ligados. Sentiu um frio absurdo. Saiu pulando da cama. Havia cubinhos de gelo espalhados sobre as cobertas. Então, teve a sensação única de que 436 giletes afiadas fustigavam seus pés, estraçalhando-os de um lado para o outro, de cima para baixo. Na verdade, ele não tinha os pés no chão, e sim numa bacia cheia de água gelada. Só parou de berrar quando notou o pedacinho de papel ao lado da bacia. “Recado para mim mesmo. Apostar tudo – inclusive os ventiladores e os cubinhos de gelo - que estou ficando louco. Não há como errar”.
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