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O Gladiador

27/12/2007 · Sem comentários

Ele ligou para o pai: “Pai, eu quero ser astronauta”. O pai, no meio de uma importante reunião com clientes, respondeu: “Comprem tudo, comprem tudo”. Desligou o telefone e explicou: “Vocês sabem como são os corretores…”. Alguns minutos depois, o filho ligou de novo: “Pai, eu quero me transformar num alienígena”. O pai continuou ignorando: “Subiram 9%? Então vendam tudo, vendam tudo”. “Esses corretores”, disse novamente para os clientes, enquanto desligava o celular e se perguntava onde estaria a empregada, que não impedia esses surtos imaginativos da criança.  

Após a reunião, o pai foi almoçar. O garçom logo disse: “Seu Carlos, há um recado para você, a moça da recepção anotou”. Haviam deixado um número de telefone, para que ele desse retorno. O pai reconheceu o número da sua própria casa e discou. Uma voz estridente atendeu: “E gladiador, pai? Eu quero ser um gladiador”. O pai arregalou os olhos. “Filho! O gladiador precisa ser um cara feroz, um animal. Tu tens o quê? 12 anos? E morre de medo de leões! Eu te dou um presente legal quando chegar em casa, tá bom?”. O filho emendou outras opções de carreira, como dançarino de funk e operador de telemarketing. O pai até pensou que a última alternativa seria uma opção bastante viável, mas não disse nada. “Depois a gente conversa”. 

De volta à sua sala, ele viu a secretária, completamente pálida, abrir a porta: “Senhor, uma coisa estranha aconteceu. Alguém ligou para cá e começou a rosnar. Quando eu perguntei o que queria, ele disse que estava cada vez mais brabo e desligou. Acho que era seu filho”. Ele passou a mão na cabeça e pediu que ela ligasse para um psiquiatra. Que marcasse duas horas: uma para o filho, uma para ele. Ouviu-se um barulhão. A porta se abriu. A secretária se virou, e dois clientes entraram. O primeiro segurava o braço, com o rosto amedrontado. O outro disse: “Tem um louco na entrada do prédio mordendo todo mundo que chega perto”. O pai olhou sério para a secretária: “Nós precisamos de uma cópia do filme Marte Ataca, um cd do Bonde do Tigrão, uma porção de aparelhos de telefone e uma ligação do primeiro astronauta brasileiro. Pelo menos, dessa vez ele não quis ser o exterminador do futuro”.

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