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A Conta de Luz

07/01/2008 · 2 comentários

Entrou correndo no táxi. Tinha menos de 20 minutos para descontar um cheque, antes que o banco fechasse. Tirou a carteira do bolso e começou a procurar o endereço da agência. Estava ali, em algum lugar. Quando achou, alguns minutos depois, percebeu que o carro não parara de se locomover durante esse tempo. O taxista não parecia reconhecer a importância da pessoa ao seu lado, o passageiro, que deveria indicar o destino do automóvel. Estendeu a mão para o taxista e entregou-lhe um papelzinho com o nome da rua e o número: João Coelho Neto, 600.

O taxista pegou o papel com a mão direita, observou-o rapidamente e devolveu ao passageiro. E então disse: Vai demorar um pouquinho. O passageiro arregalou os olhos. Quanto? Pelo menos, uns dois minutos, até eu achar a rua no mapa, respondeu o taxista. No mesmo instante, arremessou o carro para a direita, para estacionar. Ali no porta-luvas, apontou.

O passageiro abriu o porta-luvas e retirou o mapa, receoso. Não achava que aquela rua fosse tão desconhecida assim. Ficou olhando para o taxista. Ele não parecia saber o que estava fazendo. Tinha um mapa enorme em suas mãos e olhava para todos os cantos da folha, sem se fixar em nenhum. Cabelos encaracolados, barba grande, camisa desabotoada. Então o passageiro falou: Eu pego outro táxi, não te preocupa. E o taxista gritou: Achei, magrão. Fica aí sentado, que não vai demorar nem cinco minutos.

Para ligar o carro, o taxista empreendou um ritual estranho, que só serviu para deixar o passageiro mais preocupado. Antes de girar a chave, deu três batidinhas no painel, com a mão fechada, abriu todos os vidros e declarou: Tripulação, preparar para a partida. O carro arrancou ferozmente e entrou na curva derrapando. O passageiro, que já tinha os olhos naturalmente arregalados, nunca dilatara tanto as pálpebras quanto naquele momento.

Naquela velocidade, era impossível qualquer tipo de comunicação dentro do automóvel, por causa do barulho causado pelo motor e pelo vento. Mas o taxista tentou, de qualquer forma. Começou assim: Sabe aquilo que as pessoas chamam de memória? Pois é. Eu não tenho. Não lembro de nada. Vou fazendo as coisas, e elas acontecem. Mas, um ou dois segundos depois, já não tenho recordações do fato. Posso estar falando aqui com você e, peraí, quem é você? Brincadeirinha, calma. Eu sei quem é você. Sei tudo sobre você. Conheço cada milímetro do seu rosto e cada membro da sua família. Hehe. Brincadeira, de novo. Eu sei. Poderia ser piadista. Tenho que me lembrar de tentar, um dia.

O passageiro intercedeu, já apavorado: Vai demorar muito?, perguntou. Mas não obteve resposta. Vai demorar muito?, perguntou em voz mais alta. O taxista disse que não, só mais uns dois minutos. O passageiro ficou um pouco mais aliviado. A situação nem era tão ruim, afinal. Achou um taxista que dirigia tão rápido, que chegaria ao banco 10 minutos antes da hora.

Mas o taxista não lhe deu tempo para mais elucubrações. Recomeçou o falatório: E sabia que eu não pago nada para ninguém, nunca? É sério, é mesmo. Para cortar o cabelo, eu faço uma corrida pro João. Para comprar roupa, eu faço três corridas para a Arlete, que vende umas camisas ótimas. Que nem esta aqui, ó. Para comer, eu faço corridas pro Ademir, do restaurante a quilo. Para andar de táxi, haha, eu não pago nada. Para colocar gasolina, eu faço corridas pro dono do posto. Não pago nada pra ninguém. Nunca.

O passageiro balançou a cabeça, tentou emitir um resmungo - que foi suplantado pelo vento - e olhou para o relógio. Cinco minutos para o banco fechar! Cara, faltam cinco minutos, só, disse. O taxista pediu que ficasse tranqüilo, que daria tudo certo. E emendou perguntando se o passageiro não queria comprar uma camisa igual a dele. Não, gritou o passageiro, só quero chegar ao banco! Três minutos. O taxista ficou quieto e, quando foi colocar uma quinta marcha, um barulho agudo não o permitiu. Não quer engatar, porcaria! Vou de quarta, mesmo! Mas a quarta marcha também não parecia contente com a situação. Uiiiiiiiin, era o barulho.

O taxista engatou a segunda marcha e disse: Me dá um minuto. O outro esbravejou: Não, a gente nunca vai chegar! Tu nem sabe o caminho! E digo mais: Essa camisa aí é feia, muito feia. Tu nem parece um taxista de verdade, tendo que olhar no mapa a rua. E me dizer que não tem memória? Rá! Acha que eu sou trouxa? E que tu não paga nada pra ninguém? Mentiroso. Tu não teria como pagar contas de luz com as suas corridas de táxi, por exemplo.

O carro parou bruscamente. O taxista disse: É aqui. O passageiro olhou no relógio: 16h05. O banco já estava fechado. Mas, peraí, onde estava o banco? Não havia banco ali. Olhou o número: 60. Não! Olhou a rua: Cristóvão Colombo. Não! Olhou pro taxímetro: desligado. Deu 122 reais, disse o taxista. É assim que eu pago a conta de luz.

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