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Careca Jones

07/01/2008 · Sem comentários

Procurei me situar no ambiente. Nunca havia entrado num bar tão cedo. Eram 9 da manhã de uma quarta-feira chuvosa e opaca, numa cidade ainda sonolenta. Havia ali somente cinco pessoas: eu, o barman de olhos arregalados, um cabeludo com a barba mergulhada num copo, um homem de terno e sua filha. O barman logo perguntou: “O que vai ser?”. Eu respondi com certo anseio: “Guaraná”. Quem é que toma guaraná num lugar desses, pensei. Olhei para o lado e vi o homem de terno servindo um copo de guaraná para a filha. Ela tinha uma pizza gigante de calabresa na sua frente. Salivei.
Pedi uma pizza de cinco queijos. O barman semicerrou um olho, como se não houvesse entendido. “Só tem de quatro queijos”, disse, arregalando o olho novamente. Nessas horas que se percebe a integridade de uma pessoa. Ele podia simplesmente ter acobertado a falta de um queijo. Eu não perceberia. Ninguém sabe quantos queijos tem a pizza. Utilizando-se de total sinceridade e de um olho semicerrado, ele quase deixou de faturar 5 reais. “Manda os quatro, então”, respondi. Virei para a garota, a fim de perceber em seu rosto se a pizza estava boa. Para minha surpresa, ela não havia digerido nem um pedaço. Estava tirando as calabresas uma a uma e construindo um castelinho no prato ao lado.
Tomei o primeiro gole de guaraná. Atrás de mim, ouvi a movimentação de um novo elemento no recinto. Parecia um Indiana Jones gordinho. Tinha o chapéu grande e aquelas roupas características. Sentou do meu lado, tirou o chapéu e revelou uma lustrosa careca. A pizza chegou. O Careca Jones, então, retirou uma Zero Hora amarelada de uma sacola plástica. Apontando para uma foto, me perguntou: “Conhece a Letícia Spiller?”. Eu olhei para ele, atordoado, sem dizer nada. Ele continuou: “Sabe um ser humano fantástico? Pois a Letícia Spiller é assim: um ser humano fantástico”. Principiei a abocanhar a pizza, enquanto ele folheava o jornal antigo. Estava me deliciando com aqueles quatro queijos, quando o inesperado aconteceu. Um garfo intruso afanou um pedaço da minha pizza. Era o Indiana.
Me enfureci. Bradei todos os palavrões que me vinham à mente. O homem de terno e a sua filha saíram do bar. O bêbado lá do outro lado arrotou. O barman arregalou ainda mais os olhos. Indiana se levantou: “Você não sabe quem sou eu?”. E, agilmente, roubou mais um pedaço da minha pizza. “Sou assessor do Lula - um fiscal de bares”, disse. Toda minha fúria murchou com a audição de “fiscal de bares”. Naquele instante, decidi entrar no jogo. “É mesmo?”, perguntei, engolindo a metade restante da pizza. Assim começou a nossa conversa. Ele me contou de sua relação particular com o presidente, de sua carreira vertiginosa no golfe, de sua criação de três movimentos especiais no balê, do curso de leitura dinâmica que ministrava, do episódio em que comeu dez xis só para contradizer o primeiro-ministro britânico e de quando envolveu quatro atrizes globais em escândalos sexuais do pior nível.
Algumas horas depois, pedi a conta. Eu estava zonzo, de tanta informação contraditória e absurda. O barman passava a mão na cabeça, confuso, e murmurava “Quatro queijos, quatro queijos”. O bêbado havia trocado de lugar e parecia concentrado na conversa. Na hora de me despedir do fiscal de bares, eu disse “Tchau, Indiana”, e ele respondeu “Tchau, Steven”. Para o bêbado, ele falou: “Nos vemos por aí, meu amigo, que eu tenho outros bares para fiscalizar”. O bêbado arrotou e se levantou. “Eu vou junto, Indi. Vamos derrubar esses canalhas”.

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