Pierre não podia acreditar naquilo. Havia um cabelo em sua massa. Um cabelo esbranquiçado, quebradiço, pouco cuidado. Chamou o garçom, tremendo de raiva.
O garçom chegou, muito solícito, e perguntou como poderia ajudar. Na hora, Pierre percebeu que o cabelo pertencia àquele garçom. Entregou-lhe o prato de massa e disse: “o seu cabelo está caindo”.
“Sem dúvida, senhor, é a idade, você sabe”, respondeu-lhe o garçom. Pediu desculpas e assegurou que providenciaria outra massa imediatamente. A resposta só serviu para irritar Pierre ainda mais. Aquele “você sabe” incutiu-lhe um sentimento perigosamente destrutivo. Aquilo era uma indireta frontal, quase direta, praticamente uma garfada no ego.
Nova massa foi colocada na mesa. Pierre agradeceu enquanto seus olhos refletiam o que se passava em sua mente: a morte do garçom. Com tropeço inadvertido, pratada de massa na cabeça ou ingestão excessiva de cabelos. Pierre olhou para a massa e concentrou-se em terminar a refeição. Mas, para o terror de Pierre e gáudio dos adoradores das coincidências indigestas, também havia um fio de cabelo no segundo prato de massa.
Chamou o gerente, gritou, gritou de novo, reclamou da indireta, da velhice do garçom e saiu sem pagar a conta. Deixou bem claro: não queria nunca mais ver aqueles cabelos esbranquiçados e quebradiços em sua vida. O episódio do restaurante não só o irritou sobremaneira, como também o atrasou para a primeira consulta da tarde.
Dias depois, enquanto Pierre terminava de tratar o parco cabelo de uma senhora, o garçom entrou no salão. Devia cortar com outro dos cabeleireiros que trabalhavam ali. Pierre chamou discretamente a manicure e lhe disse, baixinho: “Solange, eu preciso de massa. Massa cozida. Imediatamente!”. Ela estranhou, mas, diante da seriedade de Pierre, aquiesceu e se foi.
Assim que o garçom, ali vestido de forma casual, sentou para ser atendido, Pierre aproximou-se: “Richard está de folga hoje”. E não deixou o garçom se levantar. Perguntou logo como ele queria o corte, e começou a cortar lentamente. O garçom, que reconhecera Pierre, olhava-se no espelho a todo momento. Temia uma retaliação.
A retaliação chegou pela vianda nas mãos de Solange, em seguida. Pierre pediu um minutinho. Quando voltou, tinha fios de massa escondidos em sua mão direita e a tesoura na esquerda. Com habilidade de um ilusionista, manipulou a tesoura de forma hipnótica e desorientou o garçom, enquanto sorrateiramente posicionava diversos fios de massa sobre, embaixo e entre os fios de cabelo do homem.
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