GuGo! header image 2

O Rastro do Amante

22/02/2008 · 3 comentários

Em março, faz três anos que o texto a seguir foi publicado na Folha de Novo Hamburgo. Muita gente quis me matar na época. Anunciantes desistiram do jornal, um ou outro assinante cancelou sua assinatura. Bom, acontece. 

O marido estava sentado no banheiro despejando calmamente seus dejetos vaso
adentro, quando olhou para o lado e viu que o papel higiênico havia acabado.

Que situação! Ele já vivera aquilo algumas vezes. Em todas, berrou bastante, e
alguém lhe veio socorrer com mais papel. Naquele dia, no entanto, ele estava
sozinho em casa. Se fosse uma quantidade pequena de cocô, podia ignorá-lo e
caminhar cuidadosamente com as pernas bem abertas até o outro banheiro, onde
dois rolos de papel higiênico o esperavam. Mas as circunstâncias não lhe
eram favoráveis naquela manhã. A esposa viajara com amigas, e a diarréia o
pungia violentamente, por causa de uma feijoada mal-resolvida na casa de sua
mãe, na noite anterior.

Resolveu, então, tomar a terceira medida mais drástica que havia – que só
perdia para limpar-se com a toalha de banho ou com a mão. Sempre existe
algum papel pouco utilizado dentro do lixo, pensou ele. A gente esnoba
quando tem bastante. Botou a mão dentro da cesta de lixo, tateando à procura
de um papel pouco sujo. Os dele, decerto, estariam todos inutilizáveis,
porque seu cocô sempre lhe saíra de grande porte. Os da esposa, entretanto,
mais comedidos, talvez pudessem ser
reaproveitados.

Até a metade da cesta de lixo, ele só havia encontrado papéis dele. Mas os
seguintes o intrigaram. Ele viu dois ou três ali que eram os da esposa,
inconfundíveis. Contudo, depois das manchas caprichadas dela, ele notou o
que seria o cocô de uma terceira pessoa. O marido o examinou demoradamente.
Imaginou aquele cocô caindo por entre as nádegas de sua esposa, e a imagem
simplesmente não lhe parecia concebível. Não podia ser dela. Aquele cocô era
mais rebelde. Havia alguns pedacinhos, alguns restos sobreviventes
misturados à pasta do cocô, o que não ocorria com os dejetos do casal. Para
ter certeza, comparou os papeis das três manchas. Então, a absoluta
convicção de que pertenciam a três criaturas diferentes o deixou confuso.
Eles não tinham empregada doméstica e os amigos sempre usavam o banheiro da
sala. De quem seria a terceira mancha?

De todo o cesto de lixo perscrutado pelo marido, os únicos papéis
utilizáveis eram os da pessoa desconhecida. Eles continham o cocô totalmente
concentrado em algumas regiões, deixando outras limpas e perfeitas para a
reutilização. Mas de quem seria aquele papel? Era-lhe impensável limpar-se
com o papel do…

Só podia ser um amante. A esposa ultimamente andava tão dócil, tão faceira,
que só podia ter um amante. Talvez ela houvesse dado várias pistas. Quando,
por exemplo, deixou de ir ao trabalho e por estar doente. Quando marcou três
idas à manicure durante a semana. Quando dizia, alegremente, que ele podia,
sim, ir ao jogo de futebol.

Claro, um amante! Até aquele momento, ele nunca
havia checado o papel higiênico. Babaca! Mas isso teria um fim na manhã
seguinte: passaria o marido a fazer uma inspeção diária nas manchas de cocô
e a questionar a esposa sempre que um terceiro elemento pútrido viesse parar
no seu cesto de lixo. “Haverá mais provas no futuro”, pensou ele, balançando
a cabeça, pouco antes de esfregar o rastro do amante em sua bunda flácida.

Compartilhe!

Posts Relacionados:
Eu confesso: matei com o violão
Tenho medo da raça humana
Um Reality Show Diferente - Parte DOIS
As Bancas São Uma Ilha

Tags: txt





3 comentários até agora ↓

  • 1 Cler Oliveira // 24/02/2008 às 12:34

    Eu acho que fui uma das cancelei a assinatura, hehehe. Não, lembrei: eu nao era assinante, hahahah. Escrotamente bem-escrito. :)

  • 2 Ivar // 03/03/2008 às 22:16

    Olha Gustavo, não sei se eu parava de assinar a Folha, mas que eu vou começar a examinar metodicamente a lixeira do banheiro da Laura, ah isso eu vou!
    Curti a crônica, cara!
    Abraço!

  • 3 Vinicius // 03/04/2008 às 17:51

    huauha mto bom seu blog rs

Deixe seu comentário!