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O Instrutor Riba

03/03/2008 · Sem comentários

Marquinhos desistiu da faculdade, fez concurso público e passou. Na primeira semana, percebeu que tinha muito tempo livre. Como não queria voltar ao curso nem ir para a terapia, decidiu se exercitar na academia. Aos 24 anos, nunca havia pisado em uma. Abriu a lista telefônica e ligou para a primeira.

No outro dia, depois do expediente, parou na porta da academia, repensando em todas as possibilidades para ocupar o seu tempo. Será que aquela era uma boa opção mesmo? À sua frente, havia uma garota, um computador, um telefone e uma escada. Pelo menos, a garota era bonita e estava sorrindo.

Ela lhe explicou, sem diminuir o sorriso, o funcionamento do local: horários de abertura e fechamento e, principalmente, a taxa de matrícula. Marquinhos disse que queria dar uma olhada antes de pagar qualquer coisa. A garota, que ele já não sabia se estava sorrindo ou se tinha um problema grave nos lábios, pediu-lhe que subisse as escadas e falasse com o instrutor Riba. O primeiro dia seria gratuito.

À primeira vista, a academia tinha 320 esteiras, 412 bicicletas ergométricas e o tamanho de dois campos oficiais de futebol. Com um olhar mais acurado, no entanto, Marquinhos observou que a sala fora dotada de muitos espelhos, que amplificavam a quantidade de objetos e espaço em cena.

Os espelhos eram bastante eficientes. Movimentando-se um pouco, dava para notar que a sala mal comportava cinco esteiras e quatro bicicletas, disputadas com voracidade pelos freqüentadores. Elas enfileiravam-se lado a lado, dispostas à frente de um grande televisor. Na TV, imagens de, hmm, surfe. Homens seminus em cima de pranchas, constantemente agarrados pela água do mar.

Marquinhos não conseguia entender aquilo. Praticamente, não havia mulher na academia. Só homem. Exceto por uma pessoa realmente estranha que, dependendo do aparelho em que se exercitava, trocava de sexo: ganhava e perdia cabelo, aumentava e diminuía de tamanho, possuía barba e a perdia em seguida. Mesmo assim, quando passavam pela TV, todos os homens mostravam-se extremamente satisfeitos com o programa de surfe.

Na verdade, todos ali pareciam extremamente satisfeitos com qualquer coisa que lhes acontecesse. Se Marquinhos tocasse um peso de 5kg na testa do grandão de bermuda amarela, sabia que ele continuaria com aquele sorrisinho intrigante. Todo mundo compartilhava do problema grave dos lábios da moça da recepção. Menos um. O mais velho da academia, com cara de quem queria estar em casa, deitado no sofá, comendo pipoca.

Foi ele quem se aproximou de Marquinhos. Pelo crachá, era o instrutor Riba. Tinha bigodinho e barriga bastante saliente. O que você procura aqui?, perguntou Riba, sério. Marquinhos respondeu que queria passar o tempo. Riba franziu o cenho, esperou alguns instantes e falou: Vá embora. Passe o tempo longe daqui.

Mas por quê? Não tenho mais nada para fazer, insistiu Marquinhos. Riba mostrou-se irredutível: Você parece um cara esperto. Agora me faça um favor: olha pro lado. Isso, isso. O que você vê? Um bando de homens suando. Suando e admirando uns aos outros. E olhando programinha de surfe, concordou Marquinhos.

Você sabe disso: estão todos aqui para se mostrar, essa é a verdade. Olhe para o lado, olhe. Se você perguntar, dirão que é para impressionar as mulheres. Conquistá-las e tal. Mas é mentira, você sabe disso. Você viu o jeito como eles olham para os surfistas da TV. Vá para casa, escreva, leia, durma, dê voltas na quadra, compre um cachorro ou um violão ou faça trabalho comunitário. Você não precisa disso. Você é um cara esperto.

Olha pro lado, olha. Se algum desses caras está aqui para impressionar mulheres, então se trata de um grande imbecil. Experimente utilizar as duas horas diárias que eles gastam aqui para trovar garotas. Qualquer um pode ficar bom em trova. A habilidade da trova é como um músculo: requer exercício para crescer. Além disso, é questão de estatística. Se você tentar 20 delas, alguma vai gostar. Em duas horas, dá para tentar umas 40, no mínimo. E sem suor, sem surfe, sem peso. E olha pro lado, olha. Sem aquele ser estranho, que não parece homem nem mulher. Você sabe disso.

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