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Cheiro Ruim

12/03/2008 · 2 comentários

Encontrou-a no Orkut, entre os amigos de um conhecido. Nicolle possuía estética altamente desejável e transparecia delicadeza em cada curva e olhar das fotos. Era o modelo imaginário de namorada que ele procurava. No perfil, uma revelação: “Eu amo o cheiro da chuva”.

Ele sabia que o cheiro a que ela se referia era o da grama molhada, e não o da chuva. Resolveu esquecer por alguns momentos: “Também gosto do cheiro da chuva. Tem MSN?”. Alguns minutos depois, ela respondeu: “Tenho”. Aquela resposta singela, com todas as suas nuances e possibilidades, foi o suficiente. Achou que, não respondendo logo, a garota se interessaria mais. Olharia as comunidades dele, os depoimentos, as fotos e ficaria se perguntando por que ele não continuara a conversa.

No segundo dia de resistência, chegou-lhe outro recado bastante curto e significativo: “niii@hotmail.com”. Adicionou-a na mesma hora. Em vez de dar oi, ficou esperando. Era um daqueles momentos de incerteza que impulsionam a paixão antes que ela de fato tome por completo as duas vítimas. Antes da conversa, imaginou-a tomando banho de chuva com ele, ao som de uma boa música, sentindo aquele cheiro tão específico que os unia e os manteria juntos por muitos anos.

Abriu a janelinha da Nicolle e digitou “oi”. Ela respondeu “oi”, acompanhado de uma carinha feliz. Ele disse: “você não fala muito, né?”. Ela disse que não falava com estranhos. Ele se apresentou. Cada frase dela era precedida por poucos segundos de grande ansiedade. Contou para ela o quanto gostava de música, cinema e pizza. Com menos palavras, ela também revelou que adorava música e cinema, mas só comia pizza se tivesse muito queijo. Ele não conteve o sorriso ao ler sobre o queijo.

Depois de falarem sobre o cheiro da chuva, marcaram de assistir a um filme. No outro dia, fazia sol quando ele parou na frente da casa dela. Viu-a abrindo a porta e movendo-se com graciosidade pelas escadas. Só faltava dizer que fazia ou fizera aulas de balé para encantar-lhe ainda mais. Antes de Nicolle chegar ao carro, mirou-lhe os olhos pela primeira vez. Era um olhar meigo e curioso, daqueles que revelam delicadeza e inteligência. Ele quedou-se um grau mais apaixonado.

Beijaram-se na bochecha. Nicolle exalava perfume muito agradável. Ele poderia passar o resto da vida cheirando aquelas bochechas e, por que não, todo o resto. Nervoso, ligou o rádio, colocou um CD e disse: “Preparei uma coisinha para escutarmos”. Ela arqueou as sobrancelhas: “Será que eu aprovo?”. Por fora, ele riu desafiadoramente. Por dentro, suplicou pela aprovação.

Começou a tocar a primeira música: “Seu guarda eu não sou vagabundo, não sou delinqüente”. O criador do CD sentiu quando seus primeiros neurônios foram esmurrados. Aquele não era o CD certo. Devia ser música de seu irmão, que andara com o carro um dia antes. Abriu a boca, tentou explicar. Mas ela sorriu de novo: “Adoro essa música”. Ele pensou que fosse brincadeira. Não era: “Bruno e Marrone fazem umas letras tão bonitas”.

O cheiro se transformou. A fragrância perdeu toda a sua pureza, e a atmosfera tornou-se mais pesada. “Não gosta de rock?”, ele perguntou, incrédulo. Ela deu de ombros. Com o movimento dos ombros, ele reparou nos seus braços. Bem finos. E o nariz não era tão bonito assim. Tinha uma pintinha que maculava a impressão anterior. Os olhos já nem pareciam azuis.

“Pensando bem, não sei se devíamos olhar o filme”. Ela concordou e propôs uma festa com pagode ali perto. Ele levou-a de volta para casa. Quando ela estava abrindo a porta para sair, ele lembrou do cheiro da chuva e disse: “Nicolle”. Ainda no carro, ela olhou para ele. Ele se aproximou mais, e um pouco mais, e então inalou todo o ar que havia próximo dela. Fez cara feia: “Pode ir”.

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2 comentários até agora ↓

  • 1 Sara // 13/03/2008 às 2:20

    hello!! estás ferido, gustavo(ponto de interrogação). o jorge (hagah) me disse q tu te machucou jogando bola. ok, ok. vai ficar td bem. queria te dizer q estou dando uma suuuuuper navegada no teu blog e q estou realmente tendo um momento de diversão. esse ultimo texto está ótimo. e tem outros vários q ri, refleti, escutei música e fui feliz. beijos, Sara

  • 2 gisele // 03/04/2008 às 19:58

    kakakakaka!!! muito bom!!!!

    e a menina tentando ser simpa´tica para cativar ainda mais o tão apaixonado homem desconhecido e…

    decepção para ambos!!!!!!

    bj, Gisele
    obrigada pela visita.

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