Olhou para o banco da frente e viu um cabelão enorme, desses pertencentes a adoradores do deus Marley. Mas não era só um cabelo grande, duro e desagradavelmente cheiroso. Era um cabelo revolto e encorpado, cujos dread locks, tranças e fios pareciam ter vida própria. Só faltava falarem.
A confusão começou poucos segundos depois, quando o cabelo, de fato, falou. Sayonara, Brother, disse o cabelo, com uma voz rouca. O cara do banco de trás não gostou: Tu não poderia estar falando. E japonês, ainda. Tá louco? Honra o teu dono! Se vai falar, escuta alguma música do Bob antes, aprende o sotaque de jamaicano e fala sobre amor e vibrações positivas, uma besteira dessas qualquer. Não me vem com Sayonara, Brother.
O dono do cabelo, ouvindo resmungos atrás de si, virou-se para entender o que havia. É esse cabelo aí, pô. Tá tentando falar comigo! Eu disse: se vai falar, não fala em japonês, pelo menos. O cabelo me encara e manda um Sayonara, Brother, como se fosse um japonesinho muito doido, meio americanizado, me chamando de irmão. Não vou tolerar muito tempo essa conversa, já tô ficando irritado. Não é porque ele é um cabelo enorme desses que pode me chamar de irmão.
Não sei quem é o irmão dele, porra, eu é que não sou. Mas dei a dica: aprende na raiz, cabelo. Procura pelo Bob, pelo rasta, o movimento regueiro, a dancinha alegre, as vibrações positivas. Tenta imitar o sotaque de jamaicano falando inglês, essas coisas. Dei a dica completa, e o cabelo mandou mais uns quatro Sayonara, Brother, além de falar algumas coisas que eu não entendi. Porra, como que vou entender japonês, meu? Tá louco. E não vai ser com o teu cabelo que vou aprender.
Sério, chinês ainda vale a pena, porque em 10 anos só vai existir chinês no mundo, e isso é um fato. Os caras exportam tudo mais barato, têm mão-de-obra escrava e se multiplicam como coelhos comunistas em um cio muito organizado e ditatorial, regidos provavelmente por um imperador romano de olhinhos puxados e afeito a orgias.
Por isso, não respeito o teu cabelo. Quando ele falar chinês comigo, aí sim. Mas essa é a minha parada. Então, Sayonara, Brother, e cuida que esse japa que tu carrega na cabeça pode levar a sério o papo da china e começar a encoxar outros cabelos aqui do ônibus. E eu te digo: se o teu cabelo engravidar alguém, eu raspo a família toda da tua cabeça.
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