[Texto LONGO para aula de Iniciação ao Conhecimento Científico.]
A Descoberta
Quando eu tinha 12 anos, era costume do meu pai levar a mim e ao meu irmão à loja de CDs. Cada um podia escolher um ou dois de que gostava, mesmo não tendo muita idéia do que se queria. Meu irmão, Guilhermo, tem três anos a menos que eu. Naquela época, portanto, tinha nove. Em uma dessas compras, ele escolheu um álbum de uma banda chamada Iron Maiden. Na capa do CD, havia um monstro e um letreiro engraçado. Pensei que ele nunca escutaria.
Alguns dias se passaram, e minhas compras daquele dia se revelaram desastrosas. Em um momento de distração, deitado na cama, ouvi uma guitarra fazendo um barulho muito agradável. Era um som repetitivo, agudo, que eu nunca escutara antes. Segundos depois, escutei a voz que me emocionaria e empolgaria por muitos e muitos anos. “Can I Play With Madness”, cantava Bruce Dickinson. Eu estava escutando o CD do meu irmão.
A Espera
Desde a época da descoberta, eu acalentava o desejo de ir a um show daquele pessoal louco que fazia apologia à besta em suas músicas e me desconcertava com riffs, solos e gritos. O problema é que o Iron Maiden é uma das maiores bandas de Heavy Metal do mundo e uma das grandes bandas inglesas da história. Quando vinham ao Brasil, só faziam show em São Paulo. No Rock in Rio de 2001, deixei de ir por falta de dinheiro e idade. Anos depois, enquanto eles estavam em São Paulo, por uma daquelas ironias que a gente nunca entende, eu estava em Londres.
No final de 2007, dez anos depois do contato primordial com aquele som, anunciaram o show em Porto Alegre, no Gigantinho. Eu nem escutava mais tanto, embora tivesse excelentes lembranças e ainda ficasse arrepiado ouvindo Fear Of The Dark, um dos grandes clássicos, ao vivo. Mas eu não podia faltar ao show. E não havia companhia mais adequada do que meu irmão, aos 19 anos. Ansiosos, garantimos os ingressos logo que começaram a ser vendidos, em dezembro. O show seria só em março, e aquele era o presente de Natal que recebemos dos nossos pais.
Alguns dias antes do show, o nervosismo e a ansiedade tomaram conta. Admirando o ingresso, que estampava os seis integrantes da banda, notei que o show cairia numa quarta. “E eu tenho aula à distância nesse dia”, pensei. Entrei no site da Unisinos para conferir os horários. “5 de março não pode ser o dia da aula presencial”. Mas era. Por isso, mandei e-mail para a professora Malu, com quem eu já havia tido aula um ano antes, de Psicologia da Comunicação. Eu sabia que ela era bastante compreensiva, mas tratei de explicar-lhe direitinho a importância do evento para que não houvesse mal-entendido.
Pensamento acelerado antes do show
Meu colega de trabalho no hagah, o Rafael, estava encarregado de cobrir o show e me ofereceu carona de táxi. Aceitei, claro, desde que meu irmão pudesse ir junto. Combinei que ele nos encontraria na frente da RBS, depois de pegar um ônibus em Novo Hamburgo.
A partir da entrada no táxi, a narrativa tem de se acelerar, porque a percepção e as sensações tornaram-se mais rápidas e intensas. Faltavam poucas horas para o grande show da minha vida. Um show de clássicos, em que o Iron Maiden apresentaria as músicas que o tornaram o mito de hoje e que conquistaram milhões de fãs fanáticos em todo o mundo. Com exceção de uma ou outra, que eu não escutava há bastante tempo, todas as canções figuravam na minha mente, enquanto eu já balançava a cabeça no ritmo apropriado.
O show
Depois de algumas horas na fila, entramos no Gigantinho. Não havia mais lugar nas arquibancadas, e a pista já estava quase lotada. Mas não era dia de se sentir confortável. Era dia de curtir Iron Maiden. Por isso, rumamos para o meio da pista, perto do palco. Logo, não havia mais espaço entre as pessoas ali. E essa falta de espaço passou a ser comprimida com a proximidade do show. Antes do Iron, tivemos de aturar a filha do baixista e fundador da banda, Steve Harris, que tentava animar o público. Ela não sabia que nada poderia animar aquela platéia antes que o Iron Maiden subisse ao palco.
Fazia calor, havia gente demais, o espaço não era tão grande, todos suavam, o copinho de água custava 4 reais. Às 21h em ponto, o alívio: iniciou-se no telão um vídeo da banda chegando ao Brasil em seu avião estilizado. (O próprio vocalista, Bruce Dickinson, veio pilotando.) Em seguida, soou a voz de Winston Churchill. Isso simbolizava o início da música Aces High. E foi aí que tudo pareceu desmoronar.
Depois de Churchill terminar seu discurso ( “You may attack in the field, you may attack in the sea… You shall never surrender”), o primeiro acorde de guitarra entrou nos tímpanos dos metaleiros. Não havia como ficar parado nem como escapar. A massa de pessoas comprimidas perto do palco foi arrastada para mais perto dele, enquanto todos pulavam em conjunto, sem grande escolha de movimento. Essa comoção inicial se espelhou em machucados pelas minhas costas, que foram surradas. Tive de conter o Guilo, que queria partir para cima de dois ou três dos mais loucos, que estavam pulando e empurrando ali perto.
O Encontro
Na verdade, eu já sabia que seria assim. Porque aquele show não era uma apresentação normal. Era uma reunião de adoradores do movimento de heavy metal que aquela banda iniciou. Ouvintes que esperaram anos e até décadas para se encontrar com a fonte da música que os fazia balançar a cabeça, fincar o pé no chão com força e gritar o mais alto possível. Finalmente, ali estava o Iron Maiden. Quando começou Fear Of The Dark, ouviu-se um coro ensaiado de vozes que acompanharam e, muitas vezes, suplantaram a voz de Bruce Dickinson.
Naquele exato momento em que criadores, criatura e adoradores se reuniram em uníssono, em um único propósito, uma única motivação, tudo fez sentido. A platéia não era mais de empurrões, desmaios e gritaria. Eu tive de me controlar para não chorar, e vi muitos fazerem o mesmo. Mas alguns falharam. Sem deixar, claro, de bater o pé no chão com força e sacudir a cabeça com violência, empurrando o pessoal do lado, pulando de alegria e, no fim, abraçando quem estava em volta.
Análise das lágrimas
Eles realmente existem. E como tocam! Olha o Steve Harris ali, cantando mesmo sem microfone, como faz em todos os shows. Olha o Janick Gers fazendo piruetas com a guitarra! Escuta esse solo do Adrian Smith. Tenta achar o Nicko McBrain atrás daquela bateria enorme que só ele sabe tocar. Tenta lembrar de quando tu escutaste tudo isso pela primeira vez…
Ingresso guardado
Para mim, foi o melhor show da história. Um dos melhores momentos da minha vida.
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2 comentários até agora ↓
1 Cocólatra // 27/03/2008 às 14:34
Muito bom texto!
ÓTIMO SHOW!
abraço
2 Rafael Terra // 27/03/2008 às 20:49
Bah, adorei! Melhoras para voc’e !
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