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Quanto menos Platão, melhor

31/03/2008 · Sem comentários

Encontrou uma vaga com ótimo salário: gerente regional de uma empresa americana com sede no Brasil. Teria de comparecer à filial no dia seguinte, às 13h, munido de currículo e preparado para uma “extensa entrevista”.

Descendo as escadas do prédio, encontrou o zelador.
- Seu Zé, o senhor é um homem experiente. Talvez possa me ajudar.

O Seu Zé ouviu a história com os olhos quase fechados e colocou a vassoura de lado:
- Mas você fala inglês?

Não. Ele não falava inglês. Nem, como pedia o anúncio, tinha dois anos de experiência na função e bacharelado em Administração, com desejável pós-graduação.

- Hmm. Então você precisa enganar esse pessoal. Seja misterioso, para que achem que você é muito inteligente. É a sua única chance: sorria sem mostrar os dentes e responda a tudo com novas perguntas.

Mais tarde, em uma loja de roupas, o candidato exercitou o seu sorriso sem dentes diante de camisas sociais. Ficou entre uma branca e uma cinza. Dirigiu-se ao vendedor.

- Que camisa você usaria para parecer inteligente em uma entrevista de emprego para o qual não tem as qualidades necessárias?

O vendedor pegou a cinza na mão:
- E eu não falaria muito. Na entrevista, sabe.
- Posso não falar nada?
- Não, não, é melhor falar alguma coisa. Quando não souber o que dizer, recorra a algum grande pensador. Freud, Platão, Jô Soares…

Munido dos conselhos do vendedor da loja e do zelador, foi dormir preparando-se mentalmente. Teria de parecer inteligente falando pouco e, quando falasse, responder a tudo com perguntas. Isso tudo usando sua camisa nova e sorrindo sem mostrar os dentes. E, em situação de emergência, deveria recorrer a algum pensador, tipo Platão, Freud e Jô Soares. Será que Jô Soares impressionaria o entrevistador? Talvez Platão soasse melhor.

A entrevista transcorreu de forma bastante tranqüila, excetuando-se as situações de emergência. Que não demoraram a aparecer. A primeira pergunta era simples: “Você fala inglês?”. A resposta: “Se Platão falava, por que não?”. Seguiu-se um sorrisinho sem dentes à mostra. O entrevistado repetia mentalmente: “fale menos, fale menos”. Então o entrevistador pediu-lhe que falasse sobre sua experiência profissional. “Por que falar sobre algo tão prático?”, retrucou, com o sorrisinho cada vez mais afiado.

A ligação do entrevistador não veio, mas o vendedor ofereceu trabalho na loja. Ele agradeceu.

- Platão ficaria orgulhoso, hein?

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