Um frio enorme, e o Jorge suando. Confessou logo: cara, me lograram. Uma cigana. Olhos azuis, linda. Foram-se 50 pilas. O Zé riu. Imagina. O Jorge, quase um Jorjão, enganado por uma cigana. Não podia acreditar naquilo. Uma cigana linda?

Foi atrás da cigana. Chegou ao local que o Jorge havia indicado. Um grande grupo de mulheres, de saia, sandálias e penduricalhos nas orelhas e nos dedos, parava todos os transeuntes. Agarravam-nos pela mão, pelo ombro, cochichavam coisas no ouvido.
O Zé aproximou-se com cuidado. Não queria ser agarrado por qualquer cigana. Queria aquela que tinha enganado o amigo. A de olhos azuis, linda. Uma cigana linda, será mesmo? Uma gordinha de narinas bem abertas apareceu rebolando, com um sorrisinho sem dentes à vista, e agarrou-lhe a mão. Eu sei do seu futuro, bonitão. Ele nem respondeu. Atrás da gordinha, encontrou quem queria.
Andou até ela. O amigo estava certo. A cigana era linda. Tinha olhos azuis-translúcidos, nariz saliente e lenço no cabelo. O nariz provocava uma estranha sensação. Não era um nariz comum, mas constituía-se num espécime esteticamente agradável. O pingente entre os olhos chamava a atenção para o local e desviava o foco de possíveis falhas na feição do rosto. Ele estendeu-lhe a mão.
Ela olhou, olhou, olhou e disse, finalmente: Você vai morrer amanhã. Sorriu e virou as costas.
O Zé não gostou. Peraí, morrer amanhã. Como assim? A cigana encarou-lhe, com aqueles olhinhos hipnóticos, o nariz protuberante quase encostando no dele, e falou baixinho: É simples, querido: você vai morrer amanhã. Nem vai sair da cama, provavelmente.
Ele engoliu em seco. Não esperava aquilo. Ela não pedira dinheiro, não tentara nenhum truque de mágica nem solicitara um depósito numa conta à qual só ciganas tinham acesso. Só previra sua morte, para o dia seguinte, em casa.
Os olhos azuis continuavam ali na frente, pacíficos e acolhedores. Ele tentou: E se eu não voltar para casa? Ela revidou: Você morre de qualquer jeito. Se for para um bar, morre bebendo. Se ficar dando voltas de carro, morre dirigindo. Se não fizer absolutamente nada e postar-se completamente imóvel, morre ali mesmo, por motivos desconhecidos.
Ficou com medo. Se ela pedisse dinheiro, pelo menos, ele deixaria de acreditar. Explodiria na hora: Ah, desgraçada, roubou meu amigo, e agora quer me roubar também! Mas ela só olhava para ele e dizia que ele ia morrer, morrer, morrer. De qualquer jeito. Com aqueles olhos, ainda. Como não acreditar?
Foi para casa desejando ardorosamente não morrer logo. Dentro de um caixão, não poderia ver a cigana. No caminho, não parou de pensar nela. Naqueles olhos, principalmente. Voltaria para vê-la, naquele mesmo dia. Pelo menos um oi. Ela o tinha chamado de “querido”, afinal. Podia ter algum significado. Mas essa possibilidade o assustava mais do que a simples previsão de sua morte. E se realmente ela houvesse gostado dele? E se ele, depois de tanto tempo, tivesse encontrado uma mulher bonita que o aturasse? Ele e uma cigana, de olhos azuis, linda. Duração do relacionamento: menos um dia, porque logo ele estaria morto. Ou ela gosta de mim, ou eu morro, pensou. Os dois ao mesmo tempo, não.
Depois de tomar banho, fazer a barba e passar perfume, o Zé saiu de casa decidido. Não ia morrer. No trajeto de volta, parou numa floricultura. Gastou 30 reais em flores e 7 reais num cartão. Saiu andando rapidamente, pois não podia perder tempo. Estava quase lá, quando o celular tocou.
Era o Jorge, o logrado. E aí, Zé? Gostou da cigana? O Zé respondeu, enquanto olhava para as flores: Cara, me apaixonei. Comprei flores e um cartão. Vou convidá-la para jantar hoje à noite. Ihh, então já foi, disse o Jorge. Ela também disse que você ia morrer amanhã?
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3 comentários até agora ↓
1 gaspar // 08/04/2008 às 17:26
And Darkness and Decay and the Red Death held illimitable dominion over all.
Talvez , para nosso regozijo, seja a morte verde.
Cadê o blog da Carol ?
2 gustavo // 09/04/2008 às 14:18
Já viu esse site aqui?
http://books.eserver.org/fiction/poe/masque_of_the_red_death.html
Fui lá entender a referência, hehe.
E de acordo com o Guilo, depende da Carol agora.
3 gaspar // 09/04/2008 às 15:35
Muito bom este site ! ( sítio é coisa de viado ).
I forced the last stone into its position; I plastered it up. Against the new masonry I re-erected the old rampart of bones. For the half of a century no mortal has disturbed them. In pace requiescat!
THE END
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