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Compra e venda de vale-transporte em Porto Alegre

06/05/2008 · 1 comentário

Mesmo às 21h, a Voluntários da Pátria é uma rua nervosa. Pedintes tremem de frio, prostitutas se preparam para o início da jornada, salsichas fervem para o preparo dos cachorros-quentes de um real, ambulantes se despedem e policiais rondam em grupos atrás dos vendedores de vale-transporte.

Quem tem em mente o desafio de vender algumas fichinhas de VT não pode se descuidar. Atualmente, a Brigada Militar empreende batidas de rotina, apreende fichas, leva os vendedores à cadeia e intimida compradores.

O debate ético resvala para o esquecimento quando se está em meio a uma negociação de VTs e se percebe a aproximação de policiais. Foi o que aconteceu ontem à noite. Joca viu três policiais no Mercado Público que se dirigiam à Voluntários da Pátria. Eram dois homens e uma mulher. Caminhavam com lentidão e rumo definido. Joca decidiu ultrapassá-los e vender as passagens longe de sua vista, mais à frente.

O frio, a escuridão e a repressão policial camuflavam os vendedores da rua. Joca não conseguia encontrá-los e passou alguns minutos mirando faces nas esquinas e tentando identificar os sons dos VTs se debatendo em saquinhos. Até que uma gordinha com pochete assomou e falou, baixinho: “compro e vendo VT, compro e vendo VT”.

Joca estacou ao seu lado: “Eu vendo 30. Quanto?”. Ela respondeu: “40″. Joca retirou um saquinho do bolso do casaco, previamente preparado para a venda. Entregou à mulher e alertou-a de que três policiais estavam a caminho. Ela começou a contar, com certa dificuldade. Colocava cinco na mão, passava para a outra, contava de novo. Apareceu outra mulher, aparentemente conhecida da gordinha, que anunciou: “três à esquerda”.

Um homem, também de pochete, passou na rua avisando o mesmo: TRÊS À ESQUERDA, TRÊS À ESQUERDA. Era o sinal. Ouvia-se o barulho de VTs sendo recolhidos, de gente se escondendo e vendedores se esgueirando para ruas adjacentes. Joca olhou para atrás e avistou a cabeça de um dos policiais. Teve a impressão de que estava sendo observado. Pediu para que a gordinha se apressasse, o número de fichinhas estava certo, ele garantia. Finalmente a gordinha concluiu a conta, repassou o saquinho para a mulher ao lado e começou a contar o dinheiro.

Joca ouviu um grito: “vão prender, vão prender!”. Engoliu em seco, mirou a mão da gordinha e, assim que a mão foi preenchida com quarenta reais, arrancou-lhe a grana e saiu caminhando com passos rápidos. Atendeu o celular para disfarçar e dobrou a esquina. Prostitutas se ofereceram enquanto ele tremia de frio. As salsichas continuavam fervendo.

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Tags: coisinhas crocantes





1 comentário até agora ↓

  • 1 Carol // 09/05/2008 às 7:50

    Realmente, temos que pensar nisso! Eu vendi muito VT na epoca que eu morava em POA!!! Confesso, sou reu confesso!! bjs!!

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